
Não conheci a mãe do meu pai já que para todos os efeitos a avó era a Edla, a segunda mulher do meu avô Heliodoro. Parece fadário de família, tanto de um lado como do outro, isto de saber todos os casais desquitados.
Era, realmente, a Edla quem nos recebia sempre que vínhamos a Lisboa, de sorriso rasgado e café feito na cafeteira de balão. Acasa cheirava sempre a café acabado de tirar e a bolos macios saídos do forno, daqueles que vão bem a ensopar qualquer bebida quente. Por vezes, não muitas, eu e o meu irmão vínhamos para ficar uns dias com o nosso pai e era ali, na casa de Entrecampos, que passávamos a maior parte do tempo, chegando mesmo a pernoitar no quarto das visitas. Nunca mais o esqueci, naquela altura achava-o mais para menina, com a sua mobília creme toda pintada de florzinhas furta-cores. Dizia-nos a Edla que eram assim as mobílias de mais além, em terras de depois do Tejo, e eu divertia-me por dormir naquele jardim de pinho e fantasia, com o sono a correr solto e tranquilo.
Quando, vai para quatro anos, entrei pela primeira vez na casa (monte) da herdade que haveria de comprar no Alentejo, degradada e quase tragada pelo mato, deparei-me com uma meia dúzia de móveis que valia a pena manter por ajudarem a contar um pouco da história daquele local e das artes da região.
Num dos quartos, o primeiro e único do monte original, jaziam duas camas de cor creme, pintalgadas de flores, não tão feéricas quanto as da avó Edla mas ainda assim a remeterem-me para as memórias de uma infância longínqua prenhe de sonhos e desejos. Fazia todo o sentido querê-las limpas recuperadas e feitas, mesmo que ninguém se deite nelas, assim sempre que ali entro pela manhã, para abrir a janela que deita para o campo, parece que sinto o cheiro do café, das “areias” e dos “lagartinhos” da Edla e o aconchego do seu abraço branco e sardento.
Por momentos é como se regressasse para mim, para o meu próprio começo.



