UM FIM-DE-SEMANA EM AMARANTE

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Teria sido perfeita a minha breve estada em Amarante fosse ainda viva a Lailai, a bem dizer a primeira e mais doce das lembranças que tenho da cidade, já são idos vinte e tal anos. Era António, o seu homem pachorreiro que um dia, em se vendo de barriga grande, raptou para com ele viver. Recordo o seu riso contagiante, próprio de quem sempre soube, e corajosamente, tirar proveito da vida. Uma vida de trabalho que lhe valeu a fama de melhor doceira de Amarante. Louvados eram seu mimos (papos de anjo, pães-de-ló, brisas, lérias, foguetes…) que mais pareciam saídos de mãos aconventadas. Pena que nem a sua confeitaria tenha resistido, dizem-me que por não se entenderem os herdeiros, o que não me custa a acreditar. Sobra a “…da Ponte”, a “Tinoca” e a do “Mário”, todas com doces de babar.

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Gosto do centro histórico dominado pelo mosteiro onde se evoca São Gonçalo, o tal que muitas solteironas desejam casamenteiro. Diz a tradição que é tanta a ânsia de maridalho, que vão, em rancho, puxar-lhe o baraço e que o santo à força das abanações há-de mexer a cabeça, como que a tomar boa nota das pretensões. Ali a seus pés corre o Tâmega, berço de poemas e sonhos, vindo da Galiza para mais adiante se entregar ao Douro. Corre manso, a deixar-se navegar por gaivotas e barcotes.

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Regalo-me com o casario aristocrático, respeitado e preservado com desvelo e bom senso. Fora do centro a cidade cresceu sem nexo ou bom gosto. Mas isso são “outros quinhentos”, que o país está quase todo assim, e hão-de dar para prosa mais acutilante.

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Ali nasceu Pascoaes, poeta do Marão, mas aquele chão é também de Amadeo e de Agustina e não faltam, no concelho, marcas que perpetuem os seus talentos, seja em bibliotecas ou museus (Museu Municipal de Amarante Amadeo de Souza-Cardoso, casa-museu Teixeira de Pascoaes…)

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Fiquei na Casa da Calçada, propriedade dos irmãos Mota, feito hotel único por vontade do pai Manuel, e inscrito na celebrada e exigente cadeia “Relais & Châteaux”, mas a história da casa-mãe remete-nos para António do Lago Cerqueira, homem elegante, daqueles que se conhecem à légua, que haveria de ser presidente da câmara no advento da República e mais tarde exilado em Paris, aquando da ditadura sidonista. De gabar todo o ambiente e acolho e, mais ainda, o seu restaurante, cuja qualidade foi estrelada pelo guia Michelin e que continua a ser uma das mais almejadas distinções.

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Resta-me saudar todos os gentis amarantinos(as) com quem me cruzei, com uma flute de espumante, do verde que ali se produz, luz de perfume e espírito. À vossa!