
Trocámos as voltas aos concorrentes logo na primeira das provas. Esta edição do MasterChef é “levada da breca”, bem mais que a anterior. Para nós jurados não deixa de ser divertido ver a cara de espanto dos aspirantes, convencidos que sabem ao que vão, quando entram na cozinha para cozinhar e gravar. Falo por mim: dou comigo a rir, em casa, quando tomo conhecimento do plano de gravações para o dia seguinte, e do teor das provas, e ao pressentir as reacções dos concorrentes perante o inesperado. No MasterChef nem tudo o que parece é! Desta vez demos três minutos para que escolhessem, no supermercado, os ingredientes necessários para a execução de uma receita livre, ao gosto de cada um, o que não lhes dissemos é que uma vez chegados as bancadas iriam trocar de cesta com um dos colegas. Logo se instalou o pânico na Silvia, que não é dada aos doces, e que herda a cesta do Leonel com tudo o que é preciso para fazer aquilo em que ele é craque: uma sobremesa. O Pedro também não terá ficado muito contente com o que lhe calhou da escolha da Ann Kristin. O Márcio pôs na cesta tudo que achava indispensável para uma receita de bacalhau com natas, porém foi a Marta (logo a Marta!) a ficar com ela, o que a levou a “praguejar” pela falta de temperos.
Verdade é que esta divertida troca, no final da prova, revelou-se um verdadeiro desastre, a ponto de não conseguirmos eleger os três melhores pratos mas sim os dois menos maus. Surpreendente, sem dúvida, quando sabemos, desde o inicio, que os concorrentes da actual edição do MasterChef sabem cozinhar e lidar com a pressão.
Também no desafio das equipas voltámos a baralhar. Tendo sido a Silvia a vencedora da prova anterior, e logo com um doce (lembro que a mais sofrível das propostas apresentadas), coube-lhe a vantagem de escolher a sua equipa. Era de esperar uma escolha inteligente, própria de quem sabe jogar, por isso não nos espantou a selecção: Olga, Manuel, Renata, Cátia e Ann Kristin. Do lado adversário, a equipa vermelha, composta pelo Pedro, escolhido para capitão, Leonel, Márcio, Marita, Marta e Joana. Mas mais uma vez nem tudo o que parece é, e por isso lá trocámos os capitães, acabando a Silvia a liderar quantos havia rejeitado. O facto de terem de cozinhar em condições adversas, bem diferentes das habituais, veio acicatar rivalidades e alguns pequenos “ódios de estimação”.
A Cátia, por exemplo, não se entende com o Pedro quanto aos temperos do coelho. “Quando fores capitã, lideras tu”, atirou-lhe este, sendo logo rotulado de mal-educado. O Leonel pôs-se a depenar as perdizes, sem as escaldar, por ser assim que a avó fazia, o que se revelou pouco prático e suscitou controvérsia… e por aí fora. Depenar e esfolar foram práticas exigidas na prova. Cozinhou-se em ferro, sobre lume de azinho. E assim se viajou a um tempo distante e vibrante. O cenário exigia-o, éramos em Tomar, cidade da História e da Arte.



Já tinha ido a Tomar várias vezes, mas nunca havia visitado o Convento de Cristo. Imperdoável, digo agora que me embasbaquei com o que vi da Charola, oratório privado dos grão-mestres templários, e do mais do monumento, Património Mundial desde oitenta e três. É raro ver tantos claustros num único convento, como aqui, sendo o principal, dado ao recolhimento e oração, o mais emblemático pela imponência da sua arquitectura renascentista. Por eles deambulei enquanto os concorrentes se afadigavam na alcáçova, acabando frente à mais esplêndida das janelas do Coro Baixo da igreja do Convento, a do Capítulo, que logo na primária aprendi ser exemplo maior do estilo manuelino.
Digo já, que a série está toda gravada, que este será, sem dúvida o mais imponente dos cenários exteriores desta edição do MasterChef. Pela grandeza, mas particularmente pelo peso da História, que ali se faz sentir. Outros haverá nos próximos programas, igualmente arrebatadores, mas por motivos bem diferentes.

Lá fora mesa corrida, ataviada à época, posta para os cavaleiros da Ordem do Templo, nobres e plebeus, só faltando o clero. A eles, agentes culturais da cidade a fazerem as vezes das personagens de antanho, nos juntámos enquanto jurados, uma vez mais sem voto, para provarmos do coelho e da perdiz em prova, e para depois recolhermos opiniões e decisões. Ganhou a equipa azul, já que a perdiz dos adversários se revelou ensossa.

O ovo, símbolo da renovação periódica da natureza e do inicio de cada ciclo biológico, foi o mote para a última das provas, a que dita a saída de competição para um dos concorrentes. Na Antiguidade o ovo era considerado como uma síntese perfeita dos quatro elementos: a casca identificava-se com a terra, a gema com o fogo, a clara com a água e o espaço entre a casca e a clara com o ar. Simples e quotidiano, porém um alimento rico em nutrientes, e em toda a sua carga mitológica e antropológica.
E lá foi a Silvia a mais uma prova de eliminação. É incrível o seu jeito de lidar com a pressão. E o certo é que soma e segue. A prova decorreu em três rondas, sendo que a Silvia venceu logo a primeira, quando o que se pedia era que fizessem um ovo escalfado. Também a Marita se salvou por ter apresentado o segundo melhor ovo. Na ronda seguinte, a da omoleta, seria a vez da Marta e da Olga se safarem, ficando a Joana e o Márcio para a prova final, a do ovo estrelado. Parece fácil, mas não é, que o diga a Joana que não conseguiu apresentá-lo como seria de esperar: de clara frita, levemente dourada em todo o bordo, e gema macia e cremosa.
Foi com pesar que vimos sair do MasterChef a caçula do grupo, a jovem de Esposende. Gostávamos do seu sorriso, da sua personalidade vincada e do gosto que denota pela cozinha… Mas não se esqueça que, no MasterChef, nem tudo o que parece é!

Na próxima semana:

É assim que me vêem os nossos próximos convidados de honra.
Sábado, não falte ao recreio.


