
Teria uns dez anos, não mais, e ficava preso ao ecrã sempre que aparecia uma senhora com duas fiadas de pérolas ao pescoço, modos gentis e voz doce, para dar conselhos de decoração. France de Vasconcellos, assim se chamava. Recordo-me, particularmente, quando mostrava fotos de um lugar que a meus olhos parecia mágico, a cair sobre o mar, e onde tinha a sua casa de fins-de-semana. Falava então dos almoços que dava nesses dias de receber os amigos e das decorações que criava propositadamente para tais ocasiões, ilustrando com fotografias de tudo e mais daquele rochedo vestido de casinhas alvas, sem esquecer de referir a simpatia das gentes locais. “Azenhas do Mar”, assim se chamava aquela aldeia presépio e eu achava-a tão bonita que secretamente desejava viver nela ou, pelo menos, perto.
Passaram os anos, muitos anos, e quase esqueci a história, mas não a sua protagonista, que sempre tive presente quem através da televisão me deu mundo, conhecimento e vontade de ser o que sou, até ao dia em que fui ver aquela que seria a minha casa em Fontanelas. Foi num sábado, já que durante a semana estava no Porto a fazer o “Praça da Alegria”, por isso também aproveitámos para passear à beira mar, entre a capital e Fontanelas. Foi depois de passarmos a Praia das Maçãs que o meu coração se alvoroçou ao ver, pela primeira vez, do lado esquerdo aquela imagem das casas a escorrerem pela arriba, que em miúdo tanto me havido fascinado. Finalmente eu estava nas Azenhas do Mar e não é que Fontanelas era logo a seguir?! Só podia ser um sinal da Vida.
Longe da cidade tumultuosa é aqui que me aquieto, com o cheiro da maresia, quando o vento anima, e com a lembrança de quem, quero acreditar, guiou os meus passos. Ainda hoje sabendo que a aldeia é mais que aquela arriba mágica me comovo pela lembrança que ela me traz do menino que fui, cheio de sonhos que a Vida me tem permitido concretizar.




