O sobretudo da Carolina … ó i ó aí!

Já aqui lhe falei da Rosinha, uma das senhoras que, há anos, se senta na plateia do “Você na TV” e que acaba por se fazer notar pela suas encantadoras delicadeza e discrição. Um dia disse-me ter uma cunhada, a Carolina, que acompanha o programa e gosta de mim, que me queria dar tecidos para eu fazer casacos. O marido, irmão da Rosinha, havia comprado há uns 40 anos todo o estoque de uma loja que entretanto havia encerrado portas, já que o casal também ele tinha um negócio na área do vestuário, mas uma vez que ele havia falecido há um ano a senhora queria desfazer-se de todos aqueles rolos de fazendas que se amontoavam na cave da sua casa. Confesso que sou avesso a ofertas, gosto de dar e pouco de receber, muito pelo respeito que tenho pelo trabalho dos outros, por isso tenho por hábito recusar tudo quanto os convidados do programa procuram oferecer-me ( se gosto, compro) mesmo correndo o risco de ser mal interpretado. Perante a insistência continuada da cunhada da Rosinha lá fui um dia a casa da senhora, fazendo-me acompanhar pelo Paulo Battista, celebrado alfaiate com quem trabalho, ninguém melhor que ele me poderia indicar a melhor opção em termos de material para se fazer um fato, completo de três peças, um casaco ou um sobretudo. Embasbacámos com muitas das fazendas que na casa da Carolina se amontoavam, pela qualidade, pelos padrões, dos espinhados aos quadrados, pelo facto também de percebermos que muito daquilo já não se fabrica, o que também garantia a quase exclusividade do com eles entretanto se poderia fazer. Obriga-me o pudor a não dizer-lhe quantas fazendas escolhi, por vontade da Carolina teriam sido todas, mas uma houve, em particular, que me deixou ansioso pelo resultado final. Confiei uma vez mais ao talento do Paulo e ao seu arrojo a confecção deste sobretudo alaranjado e cinzento e mal fiz a primeira prova logo percebi, pela sua estrutura, que seria impactante. Não imagina o “êxito” que obtive ao fazê-lo passear pelas ruas de Viena em plena quadra natalícia. Já não é a primeira vez que me dei conta do hábito que muitos estrangeiros têm de gabarem os outros, em plena via pública, quando algo do seu vestuário lhes agrada. Já havia acontecido comigo em Paris e Nova Iorque, penso mesmo que na altura falei disso aqui no blogue, eu próprio comecei a fazê-lo quando a elegância de uma pessoa me surpreende, mas nada se assemelha ao que se passou agora, na capital austríaca. Foram dezenas as vezes, não estou a exagerar, em que austríacos e turistas de outros países me abordaram para gabar o sobretudo, pela cor e muito pelo corte. “Nice coat”, foi a frase que mais ouvi. Houve mesmo uma senhora francesa, da minha geração, que quis saber onde o tinha comprado. Foi uma vez mais a oportunidade para falar no Paulo Battista e no detalhe da sua confecção, tal como este escrito é a oportunidade de agradecer a simpatia e generosidade da Carolina, uma fiel espectadora, que resolveu partilhar comigo parte do “tesouro” têxtil que a sua cave guardava há décadas. Vestir este sobretudo laranja é levar comigo também a história de um amor que durante muitos anos uniu Carolina ao seu marido, o mesmo que um dia comprou todo um estoque de uma loja de fazendas…