A bufa do Salvador!

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(Foto: Lusa)

Quando na passada terça-feira saí do “Meo Arena”, depois de ter feito a parte que me competia na transmissão televisiva do concerto solidário pelas vitimas dos incêndios florestais, e em conversa com a Cristina, também ela a caminho de casa após haver cumprido, brilhantemente como seria de prever, a sua função ao lado do José Alberto Carvalho, falámos do privilégio que é, como consequência da vida que quisemos para nós, podermos estar por dentro dos grandes acontecimentos que ocorrem na actualidade.

Que noite aquela em que juntos estivemos por todos! Noite histórica pela união entre os três canais generalistas de televisão, coisa nunca vista, e o mesmo se diga em relação às rádios, para cima de uma centena, com o objectivo único de levarem a todos os portugueses,
estivessem onde estivessem, aquela que gostaria de ver como a ideologia deste milénio que ainda não leva sequer um quartel: a solidariedade, manifesta em quantos subiram a palco com as suas vozes e talento, a quantos nos bastidores tornaram possível tal celebração, a quantos milhares encheram a arena e a quantos milhões responderam à chamada no apoio à causa.

Aquela não era uma festa, era sim, uma homenagem, ainda que com algumas manifestações próprias da festa, àqueles que muito ou tudo perderam e aos que lutaram gloriosamente pela vida dos outros pondo, uma vez mais, a sua em risco. Aquela era uma homenagem a todos nós que tivemos tempo para olhar à nossa volta, para perceber que muitos dos nossos estavam em sofrimento profundo e que urgia abraçá-los e apoiá-los. Naquela noite dei por mim a desejar que fossem tamanhos actos de bondade e compaixão a definir os nossos futuros dias. Se somos capazes do nosso melhor, porque perdemos tanto tempo a usar o nosso pior? Não faz sentido! Até por isso aquela noite deverá ser uma lição de que nos devemos orgulhar!

Aquela noite terminaria no palco do “Meo Arena” com a actuação do Salvador Sobral. Momento encantatório, pela memória recente que o seu talento evoca, pela sua voz sublime, pela beleza da melodia que lhe saía dos dedos. Porém, no dia seguinte, houve quem reduzisse tanto a uma frase sua menos feliz, deselegante, dita a despropósito. Afinal que importância tem uma palavra mal-cheirosa, que subjectivamente recuso repetir por considerar alarve, depois do que vimos, ouvimos, sentimos em comunhão?

Não posso permitir que uma palavra dita desajeitada e levianamente macule o que senti perante quantos naquele recinto maior ou nas suas casas, fizeram o bem. Todos os que praticaram a compaixão só podem sentir felicidade. No sofrimento dos outros, a quererem renascer a cada segundo, procuro aprender o que verdadeiramente importa e é essencial. Qualquer um de nós será o que escolher ser e naquela noite, perante a grandeza do que fomos capazes, percebi que estou certo no caminho e nada, muito menos uma bufa, me fará desviar para o fétido beco da mesquinhez e da intolerância.