RECORDANDO PETER O’TOOLE

fotografia_3A conversa teria começado de um jeito diferente se não me tivessem dito que, nessa manhã, ele havia chorado no Cabo da Roca. Seriam saudades da sua Irlanda Natal?
“Como sabe, o meu conhecimento de Portugal é mínimo. Mas andar nesta Lisboa, que é certamente uma das mais belas cidades do Mundo… passear em Belém… com os Jerónimos (ali decorria, na altura, um casório. Mal deram por ele, noivos e convidados quase deixaram de ouvir a fala do padre!) e a sua Torre… ou por entre o seu velho casario… estar no Cabo da Roca… olhar para o Atlântico… entender que o vosso país foi o grande país das Descobertas… e continuar a olhar para esse mar apaixonado de muitas cadências, que tanto pode ser, perigosamente, sereno como enraivecido… olhar para aquilo que na minha terra chamamos de castelos brancos do mar… tudo isso me fez lembrar a Irlanda. Pela primeira vez em todos estes anos senti saudades de casa!”

Não seria certamente da Irlanda de que há vinte anos se falava que Peter O’toole se achava saudoso.
“Nem sempre o meu país foi cruel. Fomos uma nação que legou médicos, professores, santos e eruditos. Até exploradores. É dessa Irlanda que me orgulho. A Irlanda dos poetas e dos escritores. É essa Irlanda que me corre no sangue e vive no meu corpo”.

Não haviam decorridos dez minutos de conversa e já nos rendíamos perante a sua elegância e sensibilidade. Já nem queríamos saber do compasso de espera a que nos obrigou para poder acabar, nos bastidores, uma partida de “snooker”, um dos seus jogos preferidos. Ali éramos bebendo-lhe as palavras. Adivinhando-lhe as pausas. Procurando absorver aquele olhar penetrante, quase alucinado. Afinal, ideal para papéis proféticos.
Era no teatro que Peter O’toole se cumpria. Formado pela Academia Real de Artes Dramáticas, era à “Old Vic”, de Bristol, que sempre voltava.
“O teatro é a nascente… é o ribeiro… é o grande rio que dá vida à terra. Fazer teatro é voltar a casa… à nascente”.

Da magia do teatro não se cansava de falar:
“No teatro há três elementos fundamentais: o autor, o actor e o público. Uma comunhão extraordinária. Sem querer exagerar, uma Santíssima Trindade. Ao repetir-se inúmeras vezes um espectáculo, pode pensar-se que se torna aborrecido, ocasionalmente até nos podemos aborrecer, mas o que mantém viva a magia é o público, sempre diferente, noite após noite. Representamos para ele e recebemos dele. Damos e recebemos… interminavelmente.

fotografia_2
A fama mundial, essa foi-lhe dada pelo cinema, quando interpretou em “Lawrence da Arábia” a figura de Thomas Edward Lawrence, agente secreto, estratega e poeta. O filme que faria Steven Spielberg decidir-se pela carreira de realizador.

“Tenho por esse filme uma afeição quase infinita. O Lawrence da Arábia deve ser colocado no seu próprio pedestal. Fazer este filme foi a maior aventura da minha vida. Vivemos nove meses no deserto. Dormíamos em tendas, viajávamos de avião e aterrávamos em planaltos. David Lean, o realizador, estava determinando em absorver o deserto e a condensá-lo nas objectivas. Imagine o que tudo aquilo representava para mim, com vinte e sete anos. Tinha vinte e nove quando terminámos. Trabalhei com actores que muito admirava. Estava na Terra Sagrada que ansiava conhecer”.

Ainda recordou a noite da estreia, numa grande gala em Nova Iorque:
“Quando as luzes se apagaram, eu deveria ter ido para o meu lugar VIP, mas não o fiz. Saltei para a fila da frente e ali estava ele: o imenso deserto. Dois cavaleiros montados em camelos vinham em direcção a mim. Um deles era eu, o outro Kthaifan Abdul Tahi, representado pelo Anthony Quinn. Há realmente momentos inesquecíveis ligados a esse filme!”.

Contudo, Peter O’toole nunca se projectou na pele de T.E. Lawrence:
“De todas as pessoas do mundo, creio ser aquela de quem menos gosto. Tenho uma projecção infantil em relação a Henrique II, que representei por mais de uma vez. Ele era frágil mas ao mesmo tempo cheio de qualidades extraordinárias. Era jurista. Foi ele quem criou o sistema de júri em 1180. Plantou florestas imensas. Amava a terra e o mar. Era um guerreiro, mas fazia o que quer que fosse menos lutar. Usava a diplomacia. Procurava resolver tudo por essa via, mas se fosse necessário lutava. Nunca perdeu uma batalha em toda a sua vida, a não ser a última, quando descobriu numa lista que lhe foi dada no primeiro dia da batalha de Lemond, com os nomes de quem tinha desertado para o lado do inimigo, o do seu filho John. A traição era coisa que nunca poderia aceitar”.

fotografia_1
Já havíamos excedido o tempo de conversa estipulado por contrato. E, se bem que o seu agente mostrasse já alguma falta de quietação, ainda falámos de Bertolluci:
“Já tinha trabalhado com realizadores italianos. Invariavelmente eles são umas prima-donas. Bertolluci não é uma prima-dona. É um homem disciplinado e jovial, que trabalha muito e bem”.

E do fascínio de filmar em Pequim o “O Último Imperador”:
“Estive a viver no Hotel Beijing, na Av. da Paz Celestial. Abandonei o carro e arranjei uma bicicleta. Costumava atravessar Pequim de bicicleta até à Cidade Proibida. Todas as manhãs entrava numa cidade Ming do século XV. Bertolluci e eu vagueávamos pela cidade… era proibido, mas teimávamos… até sermos apanhados. E fomos um dia, por um guarda com um megafone que, por qualquer razão, cantava uma canção do Bob Dylan”.

Talvez por me haver contado isto, o tenha desafiado a cantar. E Peter O’toole cantou, não sem antes me ter lembrado que os dois musicais em que entrara haviam sido rotundos fracassos. Era uma velha toada irlandesa… com a doçura de um afago.
Dali foi ouvir o fado, outro lamento. Na voz de Maria da Fé. Eu fiquei-me no mar dos seus olhos.