
Há muitos anos que não ligo a presentes. Mais, há muitos anos que não compro presentes de Natal. Para dar, não preciso de datas marcadas. Mas ao encontrar hoje esta foto com mais de cinquenta anos, inevitavelmente recuei aos Natais da minha infância. Recordo-me bem desta imagem: a chaminé atafulhada de embrulhos de papel lustroso e colorido. Mal dormia na noite de Natal. Diziam-me que tinha de ir para a cama cedo, para que o Pai Natal, por indicação do Menino Jesus, pudesse deixar na chaminé os brinquedos merecidos. Dias antes havia, para isso, escrito uma carta ao Menino, não me recordo das pedinchices, mas de lhe garantir que me tinha portado de feição a merecer quanto ele achasse por bem oferecer-me. Estava longe de saber que tinha de ir para a cama cedo sim, mas porque lá em casa os adultos tinham que andar numa fona.
Ainda o dia não havia acordado e já eu era numa excitação entre a sala e a cozinha. É que se numa havia crescido, como que por magia, um pinheiro, enorme aos olhos de um pirralho, tremeluzente e triunfante de bolas de vidro fino vindas das Américas, na outra era a montanha de presentes que me empolgava. Ao mesmo tempo, já os belhós da avó Palmira estavam fritos, embrulhados em açúcar e canela e prontos a saciar-me a lambarice.
O dia era todo para a brincadeira com o que de novo havia ganho. Queria pouco saber da roupa a estrear: camisolas, cachecóis, pijamas… muito menos das sacramentais peúgas e cuecas, que sempre achei de uma banalidade confrangedora para uma quadra tão única, queria era os livros, os jogos e mais o que houvesse para que pudesse brincar e voar. Era Natal e só ele me aquecia.


