…não passa sem entrar no seu Mosteiro ou melhor na sua Real Abadia de Santa Maria. Assim foi, no passado Domingo, sob pretexto de mais uma gravação do MasterChef Junior. Já o havia feito, ainda apresentava o “Praça da Alegria” (veja só há quantos anos isso foi!), para mostrar ao actor Miguel Falabella a grandeza do monumento, se bem que não nos tenhamos
demorado o suficiente para tudo absorver, e voltei em 2004 para junto ao escadório apresentar o “Olá Portugal”, já na TVI, mas, igualmente, sem o tempo que julgo mínimo para perceber a história desta Abadia, que desde 1985 é tida como Património da Humanidade.
Desta é que foi, feito “guia” de um grupo de jovens concorrentes à competição culinária, que em o programa começando a ser emitido logo perceberá por que andaram estes em visita, como que de estudo, em vez de cozinharem. Já muito sabia sobre o monumento e a sua origem, dadas as idas anteriores ainda que apressadas, mas o programa obrigou-me, e que gratificante que isso é para quem gosta de Arte, Património e História, a rever conhecimentos e a pesquisar outros para que o momento fosse elucidativo e empolgante para os jovens concorrentes.
Felizmente sou comprador compulsivo de livros e muitos sobre Património, para mim a nossa maior riqueza, por isso é desafiante dar-lhes uso em chegando o momento.

Foi em 1153 que Afonso Henriques, nosso primeiro rei, resolveu doar os territórios conquistados aos mouros, numa extensão de mais de 40.000 hectares, englobando 14 vilas e três portos de mar, a frei Bernardo, abade de Claraval, para que este ali fundasse uma Abadia da Ordem de Cister. O fito de Afonso seria político, no contexto da consolidação da independência do reino, dada a influência de Bernardo de Claraval em questões públicas e políticas junto do Papa. Inocêncio II declara
Portugal tributário da Santa Sé e Alexandre III, em 1179, reconhece-o como país independente e soberano sob a protecção da Igreja Católica.
Frei Bernardo morreria nesse mesmo ano e também por isso o início da construção da Igreja demoraria vinte anos, sendo o templo inaugurado apenas em 1222, quase setenta anos após a doação dos coutos de Alcobaça. O Mosteiro como é conhecido levaria séculos a ser construído, apresentando por isso diversos estilos arquitectónicos, do gótico ao manuelino.






A Igreja é a maior do país, nos seus cem metros de comprimento, e nela jazem Pedro e Inês, protagonistas da mais famosa história em que o amor e a política se misturam tragicamente. Os seus jazigos são verdadeiras obras-primas da escultura tumular do século XIV.



Este é o mais importante dos claustros, o do Silêncio, também conhecido como Claustro de D.Dinis, uma vez que era o rei na altura da sua construção. Do silêncio por ser essa uma das regras da Ordem de São Bento. Os frades apenas podiam falar com o Abade ou com o prior da Igreja na ausência daquele, o mais entendiam-se através de toda uma linguagem de sinais. Imagino ali silêncios que pacificam inquietações e olhares que expressam o indizível.


Nas mais importantes abadias cistercienses existia sempre o lavabo, não nos esqueçamos que a higiene seria rudimentar em tempos medievos, junto ao refeitório. Ali mantinha-se o silêncio, durante as duas refeições diárias, enquanto o frade leitor lia, do alto do seu púlpito, os textos sagrados.


Esta não é a cozinha original do mosteiro, é antes do século XVIII e impressiona pela sua dimensão. Sabia que William Beckford, escritor, político e aristocrata inglês, havia ficado banzado ao vê-la, quando da segunda de três visitas que fez a Portugal, mais precisamente em 1794, e lembrei-me que há muitos anos tinha comprado em Paris o seu livro “Souvenirs de Alcobaça et Batalha” e que na altura pensei “nunca se sabe se um dia me vai fazer jeito”. Fez agora, e de que maneira,
para recordar fidedignamente o que então escreveu: “é o templo à glutonaria mais notável de toda a Europa. Nunca os meus olhos contemplaram em qualquer mosteiro francês, italiano ou alemão, um espaço assim, enorme, consagrado às preparações culinárias”.
A grandiosidade da cozinha é ainda realçada pelo braço do rio Alcoa, a seu tempo desviado pelos próprios frades, e que ali passa. Mas Beckford continua, agora sobre o que a cozinha exibia: “… de um lado muita caça entre outras carnes, do outro legumes e frutos numa variedade infinita (apenas um aparte para lembrar que aos frades de Cister muito se deve do desenvolvimento da agricultura)… perto de uma longa fileira de fornos, dispunham-se montanhas de farinha e de açúcar, imaculados que nem neve, bem como jarros cheios do azeite mais puro e uma quantidade enorme de pasteis….”. Parece que o abade lhe terá dito que ali não se morria de fome, tantas eram as dádivas de Deus!
Nesta descrição fica claro que a regra da simplicidade e austeridade imposta por São Bento, inspirador da Ordem, e cumprida pelos frades medievais, há muito que tinha sido subvertida, a ponto de ali se comer muito mais e melhor que à mesa dos reis. Ademais os frades de Alcobaça haveriam de se revelar como dos mais ricos e poderosos da Europa.
Há muito mais para ver e saber: a Sala do Capitulo, onde pela manhãs os frades falavam com o abade enquanto se ouvia um capitulo da Regra de São Bento, o Dormitório, a sala dos Reis, com obras magnificas dos barristas de Alcobaça…
Outras razões haverá mas será o Mosteiro a maior, para que, como diz a canção: “quem passa por Alcobaça, não passa sem lá voltar!”.


