A Margarida

Começo desta por onde costumo acabar. Pela concorrente saída de competição, se bem que esta noite tenha sido dose dupla, mas ficará o Daniel para umas linhas abaixo, porque primeiro as senhoras e depois não posso mais calar a minha admiração pela Margarida, sendo que a sua eliminação do MasterChef me ficou na memória como o momento mais “sofrido” de todo o programa.
Falo por mim, mas tenho a certeza que poderia fazê-lo também pelos meus colegas de júri: procuramos ser justos nas avaliações, por nos cingirmos ao que provamos e ao que vamos vendo ao longo das mais diversas confecções. É o desempenho culinário de cada um que está em causa, independentemente das suas idiossincrasias. Avaliamos receitas e não carácteres. Mas acaba por ser inevitável que, passados dois meses de um contacto diário de muitas horas, sintamos maior empatia com algumas personalidades do que com outras. Cedo me habituei a admirar o exemplo da Margarida. Na casa dos cinquenta, já lutou contra um cancro e venceu, ficou desempregada depois de muitos anos, mais de vinte, como enfermeira-chefe em duas unidades hospitalares e não se rendeu. Senhora de um humor fino e acutilante, como eu gosto, rapidamente se impôs entre os concorrentes como um elemento valioso na solução dos pequenos conflitos, afinal como uma mãe a quem se tem respeito. Os muitos anos de ofício deram-lhe a facilidade de saber lidar com a pressão, pelo que chegámos a apodá-la de “dama de ferro”, tal a sua tranquilidade, mesmo que aparente, face aos desafios propostos, ao longo da competição, e a gestão criteriosa e racional dos tempos e esperadas dificuldades. Olhá-la, enquanto cozinhava (e fi-lo inúmeras vezes) apaziguava-me, inspirava-me, por nos seus gestos pressentir muitos destinos guardados. Por isso cada sorriso seu sabia-me a pão doce. Na Margarida revejo todas as mulheres que são da minha vida. Por me acrescentarem e por assim me fazerem um homem melhor.
Sim, a Margarida (que me desculpem os outros, que de diferentes jeitos me tocaram) era a minha concorrente preferida, por isso me senti triste, muito triste, com a sua saída. Mas tenho a certeza que esta experiência terá sido para ela suficientemente desafiadora para, uma vez mais, começar de novo. Obrigado minha Senhora por ter entrado na minha vida.
Dos três um!

Eu teria escolhido a trufa ou o caviar. É que, por certo a dever-se à idade, ando a ficar a modos que piegas, e assim, sempre que me apetece comer “foie-gras”, logo me lembro de que ele resulta de um cruel sacrifício: a hipertofria forçada do fígado do ganso ou do pato. É dessa hipertrofia que resulta um fígado, umas quinze vezes maior que o tamanho natural, gordo e excelente ao paladar em suavidade, untuosidade e harmonia. Mas era a Rita a escolher, ela que havia vencido a prova de eliminação da semana passada, com uma recriação da famigerada sopa da pedra de Almeirim.
O Hotel










A prova de exterior decorreu num dos mais luxuosos hotéis do país: o Ritz, agora sob a celebrada marca “Four Seasons”. Foi a primeira oportunidade dos concorrentes vestirem a sua jaleca, como que a integrarem, de pleno direito, uma brigada de gabarito. Se a cozinha do hotel é um verdadeiro santuário pelas suas dimensões, que não mais se repetem hoje em dia, por muito estrelada que seja a unidade hoteleira, e por tudo quanto ali se prepara, vinte e quatro sobre vinte e quatro horas, para gáudio dos hóspedes e visitantes, os seus salões são “de encher o olho”, pelo bom gosto e luxo da decoração e muito pelas obras de arte que vestem as paredes. Logo se reconhece o traço inimitável de Mestre Almada Negreiros nas tapeçarias tecidas em Portalegre, com lã e talento, ou a luz que Lisboa ganha nos pincéis de Botelho.
O Jantar



Bendito me senti entre as mulheres e logo cinco que muito estimo. Vicky Fernandes espantou-se com o facto do Ritz ter fechado o salão Varanda para nós, mas isso só prova que a marca MasterChef é por demais credível. O jantar executado pelos concorrentes esteve à altura da competição, já num patamar de grande exigência, e do local onde foi servido. Com Sílvia Rizzo por perto é impossível não gargalharmos, o tempo todo, inspirada que é sempre a sua verve. Mónica Jardim, Fátima Lopes e Vicky Fernandes pontuaram com elegância e discrição toda a refeição. E sobre a Cristina, a minha azougada Cristina, há muito que perdi o distanciamento de a “avaliar”, de tal modo se me cola à pele. Já não sei como é viver sem ela. Por isso todos brindámos pela verdade dos afectos.
O Daniel

Que me desculpe o Daniel pela inconfidência de reproduzir aqui uma mensagem que dele recebi, já as gravações do programa haviam terminado:
“Caro Manuel Luís Goucha
Agora que já absorvi bem estes dois meses faltava-me algo muito importante: o meu agradecimento. Apesar de nunca ter havido aquela afinidade como com outros concorrentes e nunca ter conseguido surpreender o Manuel com os meus pratos, tenho de lhe dizer que mudou a pessoa que eu era. Olho as pessoas nos olhos e enfrento as dificuldades de forma diferente…. Agradeço-lhe do fundo do coração e estou muito grato por ter tido a oportunidade de o conhecer. Espero que um dia os nossos caminhos se cruzem novamente. Um abraço Daniel Cardosi”.
Também eu tenho os meus medos. Mas não deixo que eles me inibam, enfrento-os de cabeça erguida, nunca de olhos no chão. Os nossos caminhos cruzar-se-ão já na próxima segunda-feira, no “Você na Tv”, será altura de lhe dar um abraço sentido, o abraço que lhe devo.
O programa que se segue:



Será dos mais vibrantes, por parte da sua acção decorrer em Marraqueche e logo numa praça com feitiço.
Quatro concorrentes mantêm-se em prova, mas só três irão fazer as malas. Um, ou uma, concorrente passará directamente para a final. Curioso(a)? Então embarque connosco nesta aventura. A partida está marcada para o próximo sábado. Pelas 22 horas. Na TVI.


