O primeiro dia de aulas!

Que pena não ter fotografias dos meus primeiros tempos de escola, não se usava tirar como hoje em dia, mas recordo-me do Jardim-Escola João de Deus, mesmo ao lado do Jardim Botânico, isto na Coimbra da minha infância apesar de me saber lisboeta e gostar, e da choradeira que foi o primeiro dia da pré-primária agarrado à saia cinzenta plissada da minha mãe com medo que ela ali me deixasse e não voltasse para me resgatar. Ela também não ficou melhor a contas com o remorso e não fosse o patrão tranquilizá-la, dizendo que era assim mesmo com todas as mães no primeiro dia de aulas dos seus filhos, e por certo teria ido buscar-me muito antes de concluída a manhã. Já as três primeiras classes foram feitas no Externato Feliciano de Castilho na Praça Velha, uma escola particular de duas irmãs, e ainda hoje conservo na memória a delicadeza e doçura da professora Maria do Céu, que vim a encontrar décadas mais tarde, já homem mais que feito, quando a Coimbra voltei para apresentar um “Praça da Alegria” em plena Praça 8 de Maio, junto à Igreja de Santa Cruz onde jazem Afonso I de Portugal e seu filho Sancho, nosso segundo rei da primeira dinastia (coisas que se aprendiam na primária e não mais se esqueciam). Pena foi que no último ano tivesse dado com os costados numa escola pública, não que o ensino fosse pior mas porque me saiu na rifa uma quezilenta professora, de carrapito no cocuruto e de óculos grossos, que nem fundo de garrafa, encavalitados numa penca verrucosa … acho que estou a exagerar mas é que ainda não consigo castigar, tantos anos depois, o ressentimento pelas palmadas que levei, com a menina dos cinco-olhos, verdadeiro objecto de tortura da escola salazarenta, sempre com a desculpa que era para me estimular a estudar ainda mais, logo eu que era dos “marrões”! Não esqueci o nome da megera, ironia das ironias, chamava-se Maria de Lourdes, assim escrito segundo a grafia antiga … tal qual o nome da minha mãe.

Deu-me para lembrar isto ontem, já que foi o primeiro dia de aulas para muita da criançada, e como não tenho foto da época que ilustre o escrevinhado optei por uma que tirei ontem de manhã no “Você na TV”, esse que é afinal o verdadeiro recreio da minha vida!