Há muito que perdi a conta às idas, mas sei que a primeira de tantas vezes foi quando a cidade se alvoraçou na festança dos duzentos anos da Revolução (1989). Parecia que nunca dali havia saído, familiarizado que estava com a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo, os Campos Elísios, o Louvre ou o Sacré-Coeur, mérito maior da minha professora de francês, do liceu, veja só o ror de tempo que já lá vai, que de Paris e da cultura nos falava com paixão, entre projecções, fotografias e palavras incessantemente repetidas para que a memória delas se apoderasse (“la porte”, “la fenêtre”, “le plafond”…). É como se estivesse a vê-la :“magnifique”, no seu“tailleur”, de camélia ao peito e deixando um rasto a Channel nº5. Com Dora Freire cedo percebi que há professores, criativos e dedicados, que nos apresentam o futuro. Com ela aprendi que a cidade é da luz das artes e das ideias.

Por isso se rasga perante o (meu) espanto e nunca acaba, mesmo que volte sempre aos mesmos locais. Ainda hoje continuo a sentar-me no Café de Flore (Boulevard St. Germain, 172) sabendo que foi ali que Marguerite Duras, Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Jacques Prévert e tantos outros lutaram por uma liberdade transformadora. Reencontro-os, literalmente, a dois passos (Boulevard St. Germain, 174) na livraria “L´Ecume des Pages”, entre mais de 40.000 títulos. Gosto de vadiar no Marais, o mais antigo e, tenho que, alternativo, dos bairros parisienses e de me aventurar em Pigalle onde as noites ainda são canalhas. Gosto de passear nas Tulherias, quando o frio tem cor. É cinzento-azulado. E perder-me a ver as modas em Saint-Honoré, mesmo que das montras não passe. Na Ópera (Garnier ou na da Bastilha), na Comédie-Francaise, ou na Sala Pleyel entrego-me na mãos de quem sabe cantar, dançar, representar, tocar ou compor…
Paris é sortilégio, é encantamento, é descoberta.

Por isso sempre que me perguntam se gosto mais de Lisboa ou do Porto (cidades que amo) respondo sem que consiga castigar uma certa sobranceria: Paris!. Paris é a minha cidade!


