PARABÉNS EUNICE!

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Se fosse inglesa seria celebrada com títulos e honrarias, porque maior é o seu talento e muitos são os momentos de sortilégio que nos dá através dele. Mas foi chão alentejano que lhe foi dado como raiz, da qual aliás muito se orgulha, pelo que é aqui que rasga sombras e recusas, fertilizando o que é exausto. Só de a olhar, serena e ao mesmo tempo vibrante, me comovo. Bebo-lhe os silêncios, de tão intensos que são. Caio de mãos postas a querer matar esta sede de a ouvir. Neste dia, em que Eunice Muñoz celebra o seu 85º aniversário, apeteceu-me recordar aqui a nossa última grande conversa que tivemos em pleno Teatro Nacional D. Maria II.

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– Que memórias tem deste Teatro?

– Tenho tantas! Estreei-me aqui tinha treze anos, era outro o teatro, esse ardeu, o sítio é que era o mesmo!

– Já lá vão mais de setenta anos, foi em 1941. Veio para a Companhia de Amélia Rey-Colaço/Robles Monteiro. Ora uma menina de treze anos, certamente não tinha noção da importância da Companhia onde estava a entrar.

– Claro que não. O que eu conhecia era o teatro de gente excepcional que ao longo deste país fazia os maiores sacrifícios, trabalhando em sociedades de recreio ou tendo o seu próprio teatro itinerante, como foi o caso da minha família durante cinco anos.

– Quando fala da sua família, está a falar dos seus pais Mimi e Hernâni?

– E também dos meus irmãos e dos meus tios. A dado momento fico dividida entre o teatro e o circo.

– Porque o seu pai pertencia a uma família de circo?

– Sim, os Muñoz. O meu avô, a minha avó, as suas quatro filhas, entre as quais aquela que viria a ser a minha mãe, e o único filho formaram, então, uma companhia de teatro.

– Itinerante?

– Não era assim tão itinerante! Talvez o fosse no início, mais ao tempo dos meus avós que tinham um teatro desmontável, mas depois o meu avô, com aquela paixão que tinha pelo Alentejo e que eu tão bem compreendo, comprou uma casa na Amareleja, que se tornou numa espécie de quartel-general e era dali que partiam para os espectáculos nas colectividades de outras terras.

Esse foi o meu mundo até aos sete anos, idade com que venho para Lisboa. Já fiz a segunda classe aqui, por que a primeira foi feita em casa.

– E como é que vai parar ao teatro nacional?

– Quando viemos para Lisboa, aos fins-de-semana fazíamos espectáculos nas localidades à volta da cidade e num deles entrava o tenor Sales Ribeiro, que estaria já um pouco na decadência mas que havia tido uma grande popularidade. Era um homem com muitos conhecimentos no mundo do teatro e da cultura em geral. Conhecia a D. Amélia Rey-Colaço que terá dito, em conversa, que na sua companhia precisava de uma miúda para entrar numa peça de Virgínia Vitorino, que se chamava “Vendaval”, com Maria Lalande como protagonista. E foi ele quem lhe falou em mim e assim me estreei. Antes, vim à mostra, hoje dir-se-ia audição ou, à inglesa, “casting”.

– E Amélia Rey-Colaço achou-lhe graça?

– Achou-me graça e, depois, teve sempre comigo uma estima e uma finura muito especiais e eu sempre tive por ela, por aquela delicadeza, por aquela elegância, a maior veneração. Era uma Senhora. Estou a vê-la no “foyer”, que deixou de existir e era muito a sua casa, a receber as pessoas e os amigos que a vinham visitar. Era uma mulher extraordinária. Eu sentia-me um pouco encolhida perante ela e o próprio teatro.

– Qual era a importância do teatro Nacional naquele tempo?

– Era o primeiríssimo teatro do país e quem ficasse classificado em primeiro lugar no Conservatório imediatamente tinha direito a estar aqui na Companhia durante dois anos. Ainda hoje é assim. Era uma enorme honra entrar nesta Companhia, com a senhora dona Amélia, a senhora dona Palmira Bastos, a senhora dona Maria Lalande… e eu, coitada de mim, modesta, com a minha mãe a ir comprar uma roupa para me apresentar na audição… uma roupa que detestava… não gostei nada daquela camisola, daquela saia pregueada!…

– Já que me fala da sua mãe Mimi, ouvi dizer que das irmãs era ela a mais talentosa para representar.

– E é verdade, mas a minha avó Augusta era muito melhor. Ela sim, era uma actriz extraordinária.

– Tão extraordinária que, se tivesse vindo para Lisboa, teria sido aclamada pelo público e pela crítica?

– Ah, sim, sim. Estaria certamente aqui no teatro Nacional.

Tanto fazia uma rábula, uma farsa, como fazia um drama. E era tão impressionante num registo como no outro!

Se num dia me fazia rir imenso, no outro conseguia que eu ficasse aterrada, cheia de lágrimas a ponto de ter de fugir dali. Nessas alturas levavam-me… lembro-me que tínhamos uma empregada com um nome maravilhoso, era a Igualdade, que me levava pela feira fora e eu a chorar, a chorar… a chorar por causa do trabalho da minha avó. Era tão poderoso o seu trabalho que me esquecia completamente que aquilo era representação e que aquela era a minha avó!

– Porque é que a sua avó não veio, então, para Lisboa?

– Porque o marido nunca quis que a sua mulher nem as suas filhas viessem para Lisboa, achava que a cidade era um antro de perdição.

– Lembra-se da noite de estreia aqui no Nacional?

– A peça passava-se num orfanato de meninas e éramos quatro actrizes muito jovens, duas das quais já faziam parte do elenco. Quando o pano de cena, vermelho, pesadíssimo, subiu, aí sim fiquei aterrada. Só a minha experiência de trabalhar desde os cinco anos na companhia de teatro da família é que permitiu que eu começasse a falar, era a primeira a falar, porque estava em pânico.

– Mas não foi a Eunice que escolheu ser actriz? Ao nascer no seio de uma família de gerações ligadas ao teatro estaria já traçado o seu destino?

– Foi imposto e talvez por isso aos vinte e três anos eu tenha saído do teatro. Estava cansada e precisava de conhecer outras coisas, que me falassem de outras coisas.

Aos vinte e três anos já levava dez de teatro profissional, fora os outros ligados ao teatro itinerante.

– As pessoas, na altura, entenderam a sua saída tão precoce do teatro?

– Não, de todo. Mas foi importante que o tivesse feito. Fui para uma loja de cortiças, ao Príncipe Real, para vender ao balcão, depois fui para uma fábrica de cabos eléctricos. Confesso que no balcão da loja de cortiças me custou muito estar tantas horas, todos os dias, de pé a atender clientes. Por isso, fiquei com uma grande admiração, por quantos têm um trabalho semelhante.

Mas foram experiências muito enriquecedoras.

– Não sentia saudades do teatro?

– Estive quatro anos afastada e não senti saudades do teatro durante os dois primeiros anos. No terceiro ano, já era um queridíssimo amigo, director-técnico da fábrica onde trabalhava, que me dizia “… mas faça teatro, faça, pelo menos, rádio”. E lá fui regressando através do teatro radiofónico.

– Porque, afinal, o teatro fazia-lhe falta?

– Não sei. Eu sempre fui vendo as coisas que me foram acontecendo na vida pelo lado positivo, nunca pelo lado negativo. Mesmo sem que seja a nível consciente, tento sempre usufruir das situações. Fui eu que quis sair do teatro, porque tinha muitas coisas para resolver dentro de mim. Durante um tempo eu vivia muito, porque não dizê-lo, da minha poderosíssima intuição, sou fundamentalmente uma intuitiva e uma instintiva. E isso deu para um período longo da minha carreira, até aos vinte e três anos, em que vivi mais sobre a minha intuição e instinto… em vez de ser uma entrega profissional levada mais a sério.

– Quando é que tudo muda?

– A partir, quatro anos depois, do meu reaparecimento no Teatro Avenida na peça “Joana d´Arc”. Passei, então, a levar a minha carreira muito a sério, a estar muito atenta, trabalhando muito e querendo mais, mais e mais. Desejei sempre trabalhar com bons encenadores, porque considero que é o encenador a peça mais importante de um espectáculo.

– E entrega-se facilmente às directivas de um encenador?

– Completamente e por mais jovem que ele seja, caso de um Diogo Infante. Entrego-me completamente e com todo o respeito.

– Então, julgo perceber que aquela paragem de quatro anos foi essencial para poder reflectir sobre o que queria para a sua vida.

– Foi essencial. Eu era uma miúda rebelde, parva. Eu tinha para aí uns dezasseis anos e fazia opereta com o Estevão Amarante e já acontecia uma coisa incrível, com aquela idade tinha o meu nome nos cartazes, dentro de uma estrela, tal e qual acontecia com o Estevão Amarante e outras grandes vedetas do teatro daquela altura. Eu, uma miúda de dezasseis anos! Um dia durante um ensaio das canções, estava o senhor Estevão Amarante e a dado momento ele disse-me: “Eunice, não estás a cantar!” E eu respondi-lhe: “Desculpe, senhor Amarante, mas eu estava a cantar!”. Passado um pedaço de tempo, voltou a dizer-me: “Eunice, não estás a cantar” e eu a responder-lhe: “Desculpe, senhor Amarante, mas eu estava a cantar!”. À terceira vez que ele me disse o mesmo, eu respondi-lhe: “Desculpe, mas se eu não estou a cantar, vou-me embora!”.

E não é que eu, uma fedelha, saí mesmo do ensaio! E fui ter com o empresário, o senhor Macedo, que estava do outro lado da Avenida, no Teatro Variedades e disse-lhe: “Eu não represento mais com o senhor Amarante!”. Era completamente espevitada, orgulhosa… que parvoíce!

Esta maneira de ser não poderia dar bom resultado!

Hoje, dou graças a Deus por ter privado com este nomes maiores do Teatro. O que aprendi com eles!

– Os seus pais eram muito críticos em relação ao seu trabalho?

– Não eram, não. Estou-me a lembrar de uma vez em que a minha mãe se preocupou muito comigo, também não era para menos! Foi no Teatro Avenida, numa peça em que fiz de Anne Sullivan e que acabaria por ser uma aventura terrível. Eu estava na altura com o Vasco Morgado pai, grande empresário, no Monumental, na peça “Os Direitos da Mulher”, ao lado dessa grande comediante que foi Irene Isidro, quando no Avenida por desentendimentos com a actriz que ensaiava o papel de Anne Sullivan, esta acabou por sair à beira da estreia. O Vasco Morgado, que também produzia a peça do Avenida, veio ter comido e diz-me” Não tenho agora quem faça esta protagonista, por isso vais ter de ser tu a fazê-la!”. E eu preparei essa peça em doze dias!.

– Em doze dias?!

– Eu acho que só a marcação levava doze dias. Tive a sorte de ter um marido excelente, um homem que me disse: “Vais para Lisboa, para um hotel, ficas lá e trabalhas de manhã à noite”.

– Já tinha filhos?

– Já tinha filhos.

– Estamos a falar do primeiro casamento?

– Estamos a falar do segundo casamento.

– Também teve uma vida cheia, afectivamente.

– Graças a Deus!… Então, instalei-me no Hotel Vitória, na Avenida da Liberdade, hoje pertencente ao Partido Comunista, ao lado do Teatro Avenida. Eu e o Luís SttauMonteiro, que era quem dirigia a peça, ensaiávamos de manhã, à tarde e à noite. A minha mãe ficou muito preocupada comigo por ver que no dia da estreia me desfazia em lágrimas, sempre que alguém me fosse falar, de tal modo estava exausta.

– Foi um sucesso?

– Um sucesso estrondoso, com lotações esgotadas permanentemente e com óptimas críticas. Aliás, Alice Ogando, que era conhecida no meio pelas suas farpas, disse que eu havia arriscado toda a minha carreira naquela aventura. Felizmente correu muito bem, mas a responsabilidade era muita. Doze dias para construir a personagem e fixar toda a marcação. Uma loucura!

– A vida tem sido boa para si, Eunice?

– Eu amo a vida! Amo as coisas simples. Vibro quando abro a minha janela, todas as manhãs, e vejo os pássaros. Vibro quando percebo que as andorinhas voltaram.

Tudo isso tem, para mim, um encanto enorme. Eu não me aborreço e não consigo perceber por que é que as pessoas dizem que se aborrecem.

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– Nunca se sente só?

– Posso estar só, mas nunca me sinto sozinha! Eu gosto de estar só, não me importo nada. Tenho tanta coisa para fazer ou, apenas, para olhar. Há as outras, mas para olhar já há muitas coisas belas.

– Será por pensar e viver assim, que a Eunice é considerada das actrizes mais jovens e ousadas?

– Não sei, mas é capaz de ser. Esta paixão que eu tenho pela vida e pelas pessoas é cada vez mais saboreada.

A idade deu-me maturidade e esta permite uma maior abertura e compreensão perante os outros. Passa-se a ter o cuidado de não julgar os outros. Sei que o outro é um ser humano, com defeitos e qualidades, mas não sei o que possa estar por trás que estimule ou, até, justifique uma atitude.

– Consegue ter essa compreensão por alguém que a tenha magoado? Estou a lembrar-me do seu despedimento do Teatro Nacional, depois de vinte e três anos de trabalho e dedicação.

– Tenho dificuldade em compreender essa atitude. Sinto-me magoada. Talvez me sinta ainda mais magoada por perceber que nasci num país onde a Cultura, regra geral, é tão maltratada. Foi duplamente desagradável porque está escrito. Nem eu, nem o Ruy de Carvalho, nem a Fernanda Borsatti, já não posso falar do Jacinto Ramos, porque já partiu, estamos a dizer isto porque nos apetece, está escrito. Está escrito que iriam aproveitar a nossa reforma e que a completariam para chegar ao nosso ordenado, está escrito que se fossemos necessários para alguma peça seríamos contratados… Está tudo escrito e nunca se fez nada, nunca fomos recompensados, nunca tivemos a posição que devíamos ter ao fim de setenta anos de profissão. É uma vida inteira!

– O Teatro fica em boas mãos?

– O teatro está em boas mãos. Na geração dos quarenta anos há actores e actrizes espantosos. E há uma geração de jovens com muito talento.

– Contudo, a Eunice é considerada a maior. Acha-se a maior?

– Não, nem gosto que me digam isso. Há grandes actrizes no nosso país. Não me levo, assim, tão a sério. Não quero levar-me tão a sério, se não lá volto à parvoíce da adolescência. Deus deu-me este dom de comunicar, deu-me esta graça. Por isso, Lhe agradeço, todos os dias. Às vezes, eu própria, fico surpreendida com isso.