
Agnóstico que sou não discuto Deus, por não reconhecer aos homens capacidade para falarem do que é indizível, mas interessa-me, particularmente este Francisco que há menos de uma semana entrou nas nossas vidas, como Pai, que é isso que quer dizer Papa, pastor de almas, sendo que a minha há muito se tresmalhou, e Chefe de Estado, logo político, que em se falando do Vaticano, não vai uma coisa sem a outra. Esta manhã, na missa que celebrou o início do seu Pontificado, ficou, mais uma vez, claro o rumo que pretende para o seu Ministério: uma Igreja do lado dos pobres, dos desfavorecidos, dos mais velhos, afinal de quantos têm estado na periferia dos nossos corações. Quase diria um discurso revolucionário na sua simplicidade, que nos convoca a agir perante o outro, que muitas vezes é ali a nosso lado e não vemos, tamanha a cegueira que nos leva por caminhos superficiais, inúteis, que em nada nos acrescentam. As palavras de Francisco abrem-nos um horizonte de esperança, são como um raio de luz entre nuvens de tormenta. Porque são de quem sofre com o sofrimento dos outros. São palavras inspiradoras e por isso desafiantes, para que cada um, a seu jeito e usando o que de melhor tem, possa perceber e cumprir o sortilégio da Vida. São palavras do coração. Mas serão elas suficientes para tanto que há a fazer no seio da cúria de Roma? Serão elas suficientes para abalar prepotências, hipocrisias, poderes instalados? Céptico me sinto, confesso, por acreditar que haja nas estruturas do Vaticano muitos que continuam a pensar, como o cardeal Marcinkus, de má memória, que dizia que “a Igreja não se governa com avé-marias!”.


