Os últimos cartuchos

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No último dia em Turim ainda deu para antever o que deveria ser uma visita de, pelo menos, dois dias, ao palácio da Venaria Reale, a onze quilómetros do centro da cidade, tanto é o que nos oferece, entre a residência, propriamente dita, a igreja de Santo Humberto, os jardins e as exposições, algumas temporárias, que alberga. Em quatro horas, fiquei-me pela grande galeria, o elemento mais espectacular de todo o conjunto, e pelos jardins, que se tudo o mais posso ver numa próxima vez, o que eu não poderia perder era uma exposição única, e a dar as últimas, de algumas das obras-primas de Rafael, um dos três grandes mestres do Renascimento italiano. Aliás foi o facto de ver, por toda a cidade de Turim, informações publicitando a exposição, que me levou a incluí-la no meu roteiro e sem que desconfiasse da imponência do local. Também não é para menos, trata-se, provavelmente, da maior residência da Casa de Sabóia, no Piemonte.

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A galeria impressiona pela grandeza das suas dimensões (oitenta metros de comprimento, por doze de largura e quinze de altura), pela sumptuosa decoração em estuques, cornichas e pilastras, e pelo jogo de luz/sombra que quarenta e quatro janelas e vinte e dois “olhos-de-boi”, proporcionam.

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No contexto dos grandes jardins reais europeus, passear nestes pode revelar-se uma experiência única. Dado que haviam sido destruídos durante as invasões napoleónicas, trata-se de um notável e complexo trabalho de recuperação, recentemente concluído, segundo os desenhos originais dos séculos XVII e XVIII, que conseguiu conciliar, com virtuosismo, elementos históricos, alguns arqueológicos, e obras contemporâneas, num diálogo permanente entre o antigo e o moderno. Nos meses de grande afluência de visitantes, que não neste de Janeiro, o meu preferido para tudo ver sem pressas e parceiros, pode-se passear de gôndola nos tanques e canais, andar de trem, assistir aos mais diversos espectáculos musicais, nomeadamente aos jogos de água e som, entre muitas outras atracções.

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Deu ainda para espreitar as cavalariças reais, não pelas carruagens, que é impossível encontrar outro acervo como o que o nosso Museu dos Coches exibe, mas pelo “Bucintoro” (bucentauro) a embarcação que Victor Manuel II fez construir em Veneza e que hoje se revela com o único exemplar original conservado, em todo o Mundo.

Notas à margem de uma viagem a Turim, a primeira capital de Itália, antes de Florença e Roma, no rastro de Maria Pia de Sabóia (uma das nossas rainhas mais amadas e a que durante mais anos reinou).

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Na Praça de San Carlo, a sala de visitas de Turim, tudo pode acontecer, ao cair da tarde. De uns quantos maduros que se juntam a cantar e sempre ganham uns trocos pela alegria e afinação, a um copo de vinho que se bebe com uns quantos canapés e queijos, a fazer lastro, no café Torino, um dos mais emblemáticos da cidade pela atmosfera “belle époque”, passando pelo encontro mais improvável com uma jovem portuguesa de Paços de Ferreira, simpática e talentosa, digo eu que já fui espreitar o seu sítio na internet e gostei do que vi. Filipa Tojal é formada pela Faculdade de Belas Artes do Porto e está a trabalhar, como pintora, em Asti e a caminho do Japão. Disse-me que todos anos há três estudantes portugueses, de várias áreas, que ganham bolsas de estudo para o Japão e que em Portugal nada se sabe.

Tal como noutras cidades italianas, também em Turim, os cães entram em todo o lado, acompanhando os seus donos: nos restaurantes, nos cafés, nos transportes públicos, até nas igrejas e durante os ofícios (afinal, não são também criaturas de Deus?). Pena que também nisso sejamos tão atrasados!

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“Mr. Wilson”, assim se chama uma loja situada na Via Roma (o eixo central que une a Piazza Castello, com o seu Palácio Real, e a Piazza Carlo Felipe, passando pela de San Carlo). É um verdadeiro paraíso para todo e qualquer “dandy”, até eu me deixei tentar por um ou outro atrevimento (ainda por cima em saldo) mas aqui o que importa é o jeito do proprietário se apresentar. Leva-me, de avanço, treze anos e muito arrojo. Ao pé dele sou um careta!

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Já é a segunda vez que isto acontece: primeiro em Paris (no Natal de 2013), agora em Turim. O capote alentejano faz furor. É vê-los a apontar, a pedir para tirar fotos, a querer saber quem é o criador e nós a explicarmos que se trata de um capote tradicional usado no Alentejo, para fazer face aos rigores do Inverno. Houve mesmo quem o quisesse comprar. Por muitos agasalhos que eu tenha de criadores afamados, portugueses ou estrangeiros, não há nada a fazer: só há olhos para o capote e ele é do Rui! Já sei: da próxima que viajarmos juntos… venho de “sete saias”!