
Nunca esqueço o que há uns anos me disse um produtor de um programa que na altura apresentava e a propósito da confiança exagerada que, em seu entender, eu dava ao público presente em estúdio: “figuração é gado, não interessa!”. Chocou-me tão manifesto desprezo por quem também faz parte de um trabalho televisivo, pautando-o com aplausos, risos, gargalhadas, lágrimas e tudo o mais que exigir a situação. Não se trata de confiança excessiva, e logo eu que no afã de me proteger sei muito bem estabelecer barreiras ou limites a qualquer tipo de relacionamento, trata-se sim de respeitar o outro na sua identidade e dignidade. Aquelas pessoas que todos os dias se sentam nas bancadas do estúdio têm nome, não são números… e ajudam a que aconteça televisão em cada manhã. A energia e disponibilidade de cada uma delas é essencial para que, em directo, se crie o ambiente que me permita, enquanto apresentador, desempenhar eficazmente a minha função. Por isso, sinceramente digo e redigo que o sucesso diário do “Você na TV” também passa pelo seu contributo, através da forma como se envolvem com as estórias que se contam e os convidados que se recebem.
Apeteceu-me alinhavar esta meia-dúzia de palavras no dia em que a Dona Rosa faleceu. Esta senhora sentava-se sempre atrás de nós, à quinta-feira. Era a primeira a entrar em estúdio, para assim escolher o lugar que julgava ideal para que em França o seu filho Timóteo a pudesse ver, através da televisão. Durante anos, pensámos que era assim que se amaciava, de parte a parte, a saudade entre mãe e filho. Um dia engendrámos um jeito de a surpreender, procurando trazer o filho a Portugal e foi então que soubemos que há muito que andavam de “candeias às avessas”. Sentando-se em lugar visível, o que a Dona Rosa queria era amolecer o coração do filho. Foi dor que sempre escondeu entre os risos e os bordões repetidos vezes sem conta e com que procurava mimar-me: “Ó jovem, não digo que não… “. Há um mês sofreu um AVC e não mais recuperou. Faleceu sem o afago que, possivelmente, mais desejava. Esta senhora tinha nome e um pequeno/ grande drama no seu coração. Às quintas, ajanotava-se com a sua bijutaria e sentava-se na plateia. Ajudando-me a ser mais feliz e melhor profissional. Obrigado Dona Rosa!


