O SENHOR DO FADO!

CarmodoCarmo
É do fado, e para ele o fado é tudo. Capaz ainda de o surpreender: “o fado é uma canção tão misteriosa! Todas as semanas lhe encontro novos ingredientes. É na cidade e no quotidiano que descubro, constantemente, novos detalhes. Por vezes, vou encontrá-los longe daqui, em Angola, em Moçambique…” .
Fascínio maior de uma canção que não é mais só nossa, mas sim de todos, porque Património Imaterial da Humanidade. “Ele pertence ao raro naipe de canções que resistem ao tempo. Tem pelo menos século e meio de existência. O fado é camaleónico, adapta-se. Há períodos em que parece que vai entrar em ocaso. Na década de oitenta, havia jornalistas que me perguntavam se o fado ia acabar e eu sempre disse que tal dependeria de quem o tocasse e de quem o cantasse. Sempre acreditei que ele teria continuidade, ainda mais em liberdade. A liberdade é o húmus mais digno e belo para o fado. Antes da ditadura era uma canção de conteúdo social, não fazia sentido colá-la ao regime só porque o regime se apropriou dela. Hoje ninguém questiona tal. Por tudo isto, é mais do que coisa lisboeta ou nacional, é coisa do Mundo!”

Quem diria que o filho de Lucília se apaixonaria, irremediavelmente, pelo fado, quando do que gostava mesmo era das canções de Sinatra, de Brel, ou de algumas italianadas!
“…quanto mais envelheço mais gosto de lá ir atrás e tentar perceber o porquê de tudo isto. A morte precoce do meu pai, tinha eu 21 anos, foi decisiva. Era um homem brilhante, culto, inteligente. Apaixonou-se pela minha mãe e passou a viver em função dela e para ela. Abriram uma casa de fados em 1947. Eu preparei-me para tomar conta do restaurante, tinha tirado um curso de hotelaria na Suíça e sabia línguas. A minha mãe não sabia de gestão. Assim, decidi respeitar a memória do meu pai. Trabalhei com a minha mãe, lado a lado. Um dia, numa brincadeira entre amigos, decidi cantar um fado. Havia gostado de fado até adolescente, depois num acto de rebeldia passei a ter com ele uma relação péssima. Faz parte do caminho e do processo. Naquela noite quando o cantei e os meus amigos disseram que não imitava a grande Lucília, senti que era uma espécie de luz verde”.

E já lá vão cinquenta anos, de memórias, de espantos…!
“Ao voltar ao fado, já homem, passei a reportar-me às memórias de infância e à beleza do que ouvi. Ouvi mulheres e homens cantarem-no maravilhosamente. Alguns não deixaram registo fonográfico. Tudo estava na minha memória musical”.

Depois, terá sido o saber escolher palavras e parcerias. Sempre com um gosto fino e apurado. Rodeou-se dos melhores, poetas, músicos, fazedores de sonho. Soube rasgar caminhos, trazendo para o fado o piano de Bernardo Sassetti ou o de Maria João Pires, entre outros assombros. E por isso também quiseram os fados que continuasse a ser um sortilégio ouvi-lo aos 73 anos.
“Tenho medo é de ter cabelos brancos dentro da cabeça! Para que isso não aconteça é preciso fazer um exercício de amor, com todos os defeitos que sei ter. Amo muito a minha mulher, amo muito os meus filhos, amo muito os meus netos. Amo muito os meus amigos, são os irmãos que não tive. Amo muito o meu país. É este amor que dá sentido à minha vida. Não é amor de slogan, é mesmo gostar. E assim procuro fazer de cada dia, um dia que dê sentido ao conjunto dos dias. Que acrescente… É como diz o Sérgio Godinho: hoje é o primeiro dia do resto da minha vida!”

Que o resto seja muito e vibrante. Porque a Vida é o seu lugar.
Bendita loucura de cantar e de viver.
Obrigado Carlos do Carmo

Carlos Carmo, sexta-feira passada, celebrando 50 anos de carreira, no
Mosteiro dos Jerónimos. Eu estava lá!