“Foi o Rui quem o encontrou e o namorou por dois anos. Eu sempre quis ter um monte de um branco lavado, debruado a azul ou ocre, tanto me fazia, que uma e outra são cores que definem a paisagem alentejana. Quando nele entrei pela primeira vez soube logo que aquele seria o meu chão. Havia muito a fazer, é certo, quase um ano de obras de recuperação, restauro e remodelação, mas a vibração da casa sentia-se, no salão que outrora se rasgara ao convívio, na lareira que já ofereceu aconchego, no forno do pão e das benzeduras… Levantaram-se alçados, fizeram-se portas novas, tal e qual as velhas atacadas do bicho, construiu-se uma cozinha de raiz, para acalmar os apetites, devolvendo-se, assim, à chaminé, da casa do jantar, a dignidade perdida. Onde antes era uma sacrílega kitchnette há-de voltar a crepitar o fogo do azinho e do afecto. Madeiras, casquinhas, tijoleiras, tudo se respeitou, conservando-se o original sempre que foi possível e procurando-se materiais que não o deslustrasse quando havia que fazer de novo. À volta perde-se a vista para lá do olival, imenso digo eu que nada tinha de meu, não sendo, porém, mais que um “sem terra” no gracejar de quantos, em redor, são senhores de infindáveis pastos. No meio do nada encontro tudo o que me aquieta: cheiros, sons, brisas suaves e até pela noite um dossel de estrelas me protege. Tenho andado tão contente que mal parece que há muito saí da infância!”
Este pequeno texto escrevi-o para a revista “Cristina” deste mês, falando da descoberta de um chão que sempre quis que fosse meu. Junto-lhe aqui algumas fotos de pormenores, já que sou pela cultura do detalhe. Por certo quereria ver o que lá vai dentro, mas, como compreenderá, se tudo lhe mostrasse eu ficaria vazio!
































