Habitualmente saio das instalações da TVI, terminado o programa da manhã e após uma rápida reunião durante a qual se faz o balanço do que foi feito e a antevisão do que há para fazer na manhã seguinte. Naquele dia fiquei até um pouco mais tarde para que a Vina, a nossa cabeleireira, me cortasse o cabelo, foi o suficiente para apanhar a chegada de alguns dos convidados do programa da Fátima Lopes, o “A tarde é sua”. Foi então que um elemento da produção me disse “Ó que pena, já vai! Hoje vai estar aí um menino que tem um tumor cerebral desde bebé, deram-lhe meio ano de vida, já tem dez anos e gosta muito de si. O que ele queria mesmo era conhecê-lo e ser entrevistado por si”. Ainda perguntei: “mas ele já chegou?”. Não, não estava ainda nas instalações da TVI. Fiz um compasso de espera, de uns trinta minutos, podia ser que entretanto ele chegasse, mas não, acabei por sair e dizer ao Pedro da produção: “Ele vai ser muito bem tratado pela Fátima e depois vemos como fazer para o trazer ao Você na TV”. E fui à minha vida, que é como quem diz, naquela tarde, para as compras, que há coisas que ainda me faltam no monte. Cheguei a casa pelas 18 horas, esbodegado do calor, troquei o fato por uma roupa mais informal, e quando passei pela cozinha para comer uma sanduíche, vi no televisor, que está sempre ligado para fazer companhia aos papagaios, que a Fátima estava a conversar com o David. Disse para o Rui: “este deve ser o menino que me quer conhecer” e no segundo seguinte é a própria Fátima a referi-lo, desafiando-me em directo:”Manuel Luís se estiveres a ver, fica sabendo que o David gosta muito de ti e que tens de o trazer ao programa da manhã para te conhecer”. Há emoções perante as quais as palavras, pelo menos as minhas, se acanham. “Liga para lá!”- disse o Rui. “Não. Podemos voltar à TVI? (perguntei). É o tempo de voltar a vestir-me!”. Tinha de ser, era a Vida a tirar-me do conforto da casa e da rotina, para algo bem mais importante que uma tarde de compras ou uma conversa sobre banalidades. Era a oportunidade de abraçar e de agradecer o afecto que o David tem por mim, conhecendo-me apenas da televisão, e naquele abraço, que acabei por lhe dar cinco minutos antes de o programa acabar, perante o olhar cúmplice e sempre generoso da Fátima, de encontrar aquilo que entendo como o verdadeiro sentido da Vida. É-se mais quando se é para os outros. Um simples abraço e o David ficou feliz. E eu mais ainda, nem imaginam.
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