
Maqueta do Forte da Graça, feita com 98.620 fósforos, da autoria do elvense Luís Manuel Rondão Anjos
Confesso que não sou propriamente um apaixonado por património militar, ainda que este seja indissociável da nossa história enquanto povo. O que me leva mesmo a correr “Ceca e Meca” é o património religioso e não me venham com a balela do costume de que isso contradiz o meu agnosticismo , porque do que estou falando é de Arte nas suas expressões mais superlativas (escultura, talha, arquitectura, pintura…). E é numa perspectiva meramente estética que acabo por me deixar seduzir por este imponente Forte da Graça, segundo o baptismo popular motivado certamente pelo facto de ali ter existido uma ermida consagrada a Nossa Senhora da Graça, mandada construir pela bisavó de Vasco da Gama, Forte de Lippe no dizer oficial, por ter sido o Conde Lippe, diz-se que notável militar e político alemão, quando incumbido pelo Marquês de Pombal de reorganizar o exército português, por ele descurado preocupado que andou em dar cabo da Ordem de Jesus e da nobreza, quem o concebeu, criando assim uma importante linha defensiva face às possíveis investidas de Espanha. Terá levado trinta anos a construir, empregando seis mil homens e quatro mil animais, tendo custado cento e vinte mil moedas de ouro. Duzentos anos depois as suas obras de requalificação, concluídas há menos de um ano, tiveram um custo inicial de 6,1 milhões de euros e deram trabalho a duzentos homens. O resultado da recuperação é notável pelo cuidado posto nos mais diversos detalhes, do uso das cores originais ao materiais de construção. Jubilo por ver tal trabalho, que sou dos que defende como prioritária a requalificação e valorização do nosso património. Isso nos lustra enquanto país, com muitos séculos de história e aberto aos outros e em particular a cidade de Elvas, enquanto guardiã de um conjunto de fortificações militares distinguidas pela Unesco, com a classificação superior de Património da Humanidade.
Deixo algumas das palavras do capitão António Braz, herói de várias guerras, enquanto governador do Forte da Graça na década de vinte, como que a legendar algumas das fotografias que ali tirei e que aqui desejo partilhar, por achar que há emoções que se repetem independentemente das épocas e dos protagonistas. Encontrei-as num livro apaixonante de “Memórias Esquecidas”, escrito pela sua bisneta Isabel Braz (Chiado Editora).



“Quando chegava à porta exterior do Forte podia vislumbrar toda a cidade. As suas muralhas em estrela, o aqueduto da Amoreira, na sua imponência de pedra. A predominância do branco das casas caiadas contrastando com a cor da pedra, cada vez mais escura com o passar dos anos. Impossível não gostar desta cidade, pensava. Era digna,com história e, pensava diariamente que os seus habitantes bem podiam preservá-la e defendê-la, para manter aquela dignidade para sempre”.


“… Apreciava aquele campo a perder de vista, onde não se vislumbrava a diferença entre as terras portuguesas das espanholas. Tudo fazia parte da natureza e só os homens é que sentiam necessidade de impor fronteiras e de as defender. Podia-se ver a Estremadura espanhola com a cidade de Badajoz ali tão perto, mais adiante Olivença, que carregava a mágoa de já não ser portuguesa”.




“… Admirava-me todos os dias com a beleza do Forte da Graça, uma peça militar fabulosa, erguida entre 1762 e 1792. Imaginava muitas vezes como tinha sido construído. Com a força bruta de muitos homens, sob o desenho do Conde de Lippe”.


“… No topo a Casa do Governador, que era um pequeno palacete.
Este Forte de Lippe é a arquitectura castrense mais perfeita e homogênea, a mais equilibrada, a mais bem adaptada ao terreno e a mais poderosa de todas as fortificações abaluartadas que eu conheço em Portugal”.



