MasterChef começou

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Depois de Lisboa, achei que faria todo o sentido que fosse o Porto a receber o arranque do MasterChef nesta edição que acaba de estrear. Independentemente do meu apego à cidade, que aliás é assumido e conhecido, tenho que a Avenida dos Aliados seria, pela sua grandeza e solenidade, o cenário ideal para o “mega-casting”. A autarquia, ao mais alto nível, abraçou a ideia mas acabou por “roer a corda” quando informou a produção da impossibilidade de fechar ao trânsito, as laterais da avenida, num sábado e por meia dúzia de horas, inviabilizando assim a sua realização.

Alguma coisa se terá passado, estou em crer que ao nível dos assessores, para darem o dito por não dito, dado que as laterais da avenida são fechadas por tudo e mais alguma coisa. Ele é pela Queima das Fitas, pela concentração dos País-Natais, pelas maratonas disto e daquilo… A poucos dias da data aprazada para a primeira e mais vistosa das selecções, que é quando de quinhentos candidatados a concorrentes MasterChef, e depois de um naipe de trinta “chefes assistentes” avaliar tudo quanto as bancadas exibem, são escolhidos cinquenta, não havia muitas alternativas à ideia de Lisboa voltar a ser o palco do evento.

Quando me disseram que seria no Estádio Nacional do Jamor, confesso que estranhei a opção, mas logo deixei que ela se entranhasse, ao conhecer a sua história de setenta e um anos, e ao pensar no MasterChef enquanto desafio e competição.

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Foi o estádio inaugurado com toda a pompa e circunstância no dia 10 de Junho de 1944. Dia de Camões, mas também da Raça, por vontade de Salazar, e talvez possamos entender isso da raça, segundo a linguagem do próprio regime, como o carácter de um povo diferente, aparentemente frágil mas capaz de grandes desígnios, como o de um império colonial que poucos países possuíam. O Estádio naquele dia inaugurado, perante mais de cinquenta mil pessoas e com todas as figuras gradas do regime presentes, levou, desde a sua planificação, cinco anos a ser concluído. O espectáculo inaugural com mais de 12.000 praticantes das mais diversas modalidades procurou ser uma inesquecível exaltação do Desporto, mas também dos princípios ideológicos do Estado Novo, objectivos que, ao fim ao cabo, presidiram à construção da obra, impulsionada por Duarte Pacheco, ministro da Obras Públicas e das Comunicações, e coordenada pelo arquitecto Miguel Jacobetty.

A partir de 1987 o Estádio Nacional, também conhecido como Estádio do Jamor, passa a ser visto e apresentado como Complexo Desportivo do Jamor, um espaço global cuja prioridade é a excelência do desporto de alto rendimento e dos seus protagonistas, sem esquecer o desporto de lazer.

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Há males que vêm por bem. Tivesse sido no Porto o mega-casting, como eu tanto gostaria, e acabaríamos que “nem pintos” (ainda se fossem da Costa!), dada a tromba de água que se abateu sobre a cidade, ou encafuados num qualquer pavilhão sem graça. Já ali, no Estádio Nacional, tudo correu pelo melhor. O desafio decorreu célere entre as quatro linhas, para gáudio das claques que torciam pelas seus candidatos. E no final cinquenta e uma colheres de pau eram bramidas com fidúcia e muita vontade de ir mais além. E nem um pingo de chuva para atrapalhar.

No afã das gravações que dali a dois dias continuaram, já na cozinha de preparação, que é onde os candidatos seleccionados efectivamente cozinham à nossa frente, nem dei pela contestação que se levantou nas redes sociais quanto ao “mega casting”, da parte de alguns dos que não se viram escolhidos. Só mais tarde reparei. No Jamor fiz questão, por iniciativa própria, de enaltecer e aplaudir quantos ali se apresentaram vindos de todos os pontos do país, carregados de arcas e sonhos, mas compreendo a desilusão e frustração que sobrevive quando não se é dos escolhidos. Acho porém curioso que não tenha havido a mínima reclamação junto da produtora após a finalização das gravações. Depois, é bom lembrar que à avaliação da receita que cada um levava (que até podia, manhosamente, ser de compra ou feita por outrém (como sabê-lo?), juntar-se-iam a postura face às câmaras e a história de vida pessoal, analisadas anteriormente noutras audições. Tudo conta no MasterChef. Isto é, acima de tudo, um programa de televisão!

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Na segunda fase de apuramento temia que acontecesse o mesmo que na edição anterior: uma data de receitas de peito de pato, qual delas a pior, e outras tantas de risotto. Será que tais receitas passaram de moda? É que risottos provámos três e “magrets” dois. Yupi!
Certo é que na cozinha de preparação houve variedade de propostas culinárias, criatividade e qualidade de confecção muito superiores em relação ao que nos foi dado a ver e provar no ano passado. Esta foi a primeira vez em que, nós jurados, fomos chamados a avaliar e assim será daqui para a frente até à final. Os cinco minutos finais que cada concorrente tem para concluir a confecção da receita e/ou empratar à nossa frente foram suficientes para pressentirmos algumas histórias de vida tocantes.

Destaco a da Maria Helena Cuvelo, uma vez que ao apresentar-nos umas papas de feijão frade nos remeteu para a sua infância, quando a míngua de conduto obrigava a mãe a juntar ao feijão que sobrava da panela do almoço e já em puré chilro, farinha de milho para o engrossar e assim dar de comer ao jantar. O que faltava à mesa sobrava em carinho e dedicação. Foi pouco para se manter no MasterChef, mas o bastante para nos lembrar o caminho, para que esses tempos de pobreza e castração não voltem.

Já o Victor bisou a sua ida a uma cozinha de preparação. O mesmo que tanto nos comoveu na edição anterior, pela sua extrema humildade e alguma inventiva culinária, surpreendeu-nos agora com o excesso de confiança (quantas vezes também mortífero), através das suas receitas, dizia ele que representativas das suas raízes beirãs: tal como o torricado e a tigelada.  Não foi pacífica a sua exclusão de prova, mas como passá-lo adiante, se à tigelada juntou natas, em vez de leite, e outros desvarios, para além da defeituosa confecção, abastardando assim a receita codificada, e quando o torricado não é mais que pão torrado e lascas de bacalhau na brasa?

E que dizer da Eva, outra repetente? Que chorou, claro, e que uma vez mais nos brindou com uma receita equilibrada e saborosa. Mas a questão que se impõe, já que a conhecemos de ginjeira, é: será que ela vai resistir à pressão da prova seguinte? Na edição anterior foi o que se viu! Melhor sorte lhe desejo.

Fico-me hoje pela história da Marta, que nos deu a provar uns deliciosos raviólis de lagosta em molho de erva-príncipe, mas foi de estômago socado que nos deixou ao contar que já tinha sido, apesar de tão jovem, vítima de violência doméstica. Por pouco não enfileirou a cruel tabela de mulheres assassinadas, em 2014, às mãos dos seus maridos ou companheiros e que só nos pode causar vergonha e asco. Não me calo perante quem confunde amor com bestialidade.

Vinte e cinco horas de gravações deram em hora e meia de espectáculo televisivo de grande nível, obra de uma equipa de excepção, com destaque para as equipas de realização e de edição. Se a primeira capitaneada por Manuel Amaro da Costa regista tudo na hora, com muito talento, sensibilidade e dedicação, a equipa de edição cozinha o programa com sabedoria arrebatando-nos, como espectadores, através do ritmo e da narrativa.

O programa começou, contra alguns “maus fígados”. Trinta candidatos a concorrentes  receberam o avental e estão mais perto de entrar na gloriosa cozinha do MasterChef. Mas “ainda a procissão vai no adro”. Destes trinta, apenas quinze serão concorrentes e no próximo programa não será à primeira que os ficará a conhecer. Intrigado(a)? Também eu ficaria, se não tivesse estado lá.