Lisboa das grandezas!

Quando me fico por Lisboa, ao fim-de-semana, procuro (re)descobrir a minha cidade naquilo que ela tem de melhor e mais me apaixona. Desta vez fui à Igreja de São Vicente (de Fora, porque construída para lá das muralhas que delimitavam o burgo), um dos seus mais impressionantes monumentos. Do templo medieval mandado construir por Afonso Henriques, nosso primeiro rei e raiz, em agradecimento pela conquista cristã, pouco ou nada sobreviveu (talvez apenas as lápides que aludem à sepultura da mãe de Santo António e à do cavaleiro Henrique Alemão, que morreu no cerco de Lisboa, ambas na capela do Santo (ali envergando o hábito dos Agostinhos), que o que hoje admiramos é o resultado do mecenato arquitectónico de Filipe I.

Encantei-me com a monumentalidade e alvura da sua fachada se bem que de linhas sóbrias, diria mesmo depuradas e recolhi-me no silêncio da sua nave decorada com mármores triunfantes por tão minuciosos embutidos, para ali admirar o altar barroco encomendado por D. João V, colocado sob um notável baldaquino folheado com o ouro que jorrava dos Brasis. Quisera-o, sua magnânima majestade, tão grandioso quanto o da Basílica de São Pedro.

Subi às torres da Igreja para encher os olhos com o típico casario, com o azul do Tejo e com tudo o mais que de ali se alcança. O Panteão onde repousam as nossas maiores glórias é logo em frente, nos campos de Santa Clara, mas desta quis antes ficar pelo dos Braganças, uma vez na casa conventual.

No Panteão Real, criado por D. Fernando II, onde antes era o refeitório do antigo Mosteiro, estão os túmulos dos monarcas (encimados com coroa) e dos príncipes reais da última dinastia. Excepção feita ao de D.Maria I, que encontrará na Basílica da Estrela, e aos restos mortais de Pedro IV, I do Brasil, que, como o seu simbólico gavetão indica a letras ouradas, se encontram no monumento do Ipiranga em São Paulo, tendo ficado o seu coração, por vontade própria, na Igreja da Lapa, do Porto, cidade que sempre lhe foi leal, acrescento eu. Ganham ali destaque maior o túmulo de D.João IV, o primeiro dos Bragança, e, ao centro da sala, os de D.Manuel II, último dos nossos reis, de D. Amélia, sua mãe, de D. Carlos I, seu pai e de D.Luis Filipe, seu irmão. Junto a estes dois últimos, da autoria de Raul Lino, impressiona, pela sua imponência dramática, a figura escultórica de uma mulher (a Pátria) chorando os seus filhos mártires (ambos assassinados no regicídio de 1 de Fevereiro de 1908). Dizem-me que há turistas que se assustam com a imagem.

No mesmo claustro, outro Panteão se abre à nossa curiosidade e respeito, o dos Patriarcas de Lisboa. Onde antes era a sala do Capítulo dos cónegos de Santo Agostinho estão agora sepultados os cardeais-patriarcas de Lisboa, não todos mas desde D. Carlos da Cunha e Menezes, falecido em 1825, até a D.José Policarpo. Da minha memória de adolescente lembro a figura do Cardeal Gonçalves Cerejeira, sobre quem ando a ler um livro da autoria da historiadora Irene Flunser Pimentel que aconselho, e a de D.António Ribeiro, na altura com um programa em directo na RTP, onde cativava pela sua distinção e oratória, por vezes desassombrada. Foi um escândalo para a época ouvi-lo definir as beatas como “ratas de sacristia”, mas não lhe terá sido por isso negado o Paraíso, que a existir o Criador saberá este por certo de quantos passam a vida a papar hóstias para depois lhes sair da boca só azedume e pus.

Lamento é não ter visto um português que fosse ontem no Mosteiro e na Igreja, apenas turistas, felizmente interessados e maravilhados no que a cidade tem para oferecer. Dizem-me que há poucos portugueses no Museu, já não será tanto assim na Igreja, sobretudo em dias de Eucaristia e nos sábados segundos de cada mês, que é quando há concertos gratuitos. Também há visitas de escolas e ainda bem, que a haver uma geração perdida para as causas da Arte e da sensibilidade então que se invista nos jovens e na sua salvação. Não tenho dúvidas: por apenas gostar do que é Belo é que gosto do homem que sou.