História de um quadro

Serei capaz de explicar porque gosto de pintura? Talvez porque haja uma emoção violenta dentro de mim, e não apenas estética, quando sou tocado por uma obra. É diferente do que quando perante outras disciplinas artísticas. Seja num concerto, numa ópera ou numa peça de teatro a ideia do autor chega-me através de quem a interpreta, indo pelas notas ou pelas palavras. Digamos que há como que um ou mais intermediários entre o criador e o receptor que sou. E a forma como sou atingido pela obra depende do talento e virtuosismo de quem a interpreta. Na pintura, tal como na literatura, não há intermediários. É um diálogo, nunca definitivo, entre o artista e eu próprio. Porque nunca definitivo? Porque nunca acabado. Descobrirei sempre algo novo em cada mirada, que possivelmente me levará a uma nova inquietação ou desafio.

É deixar vir ao de cima o que de oculto tem, ou julgo que tenha, para me revelar. E uma vez mais procurar divisar quem comigo é ali. Talvez deste jeito consiga explicar porque vou sempre ao museu do Prado, apenas para rever as “Meninas” de Velazquez, ou à Vila Borghese, quando em Roma, para me sentar na sala de Caravaggio…

20140618-212607.jpg

Há dias entrei no atelier de Carlos Farinha, um pintor da nova geração, lugar sacro onde o artista se cumpre.
E se muitos dos seus quadros me apaixonaram pelas estórias que o artista contava, um houve que me deixou suspenso do que se iria revelar. Um homem curvado pelos anos, ali era, náufrago de si mesmo, olhando o vazio. Fiquei como que paralisado naquele corpo já sem futuro porque se lhe havia apagado o passado, depois do autor me ter dito que a obra se chamava Alzheimer e que quando diz o nome logo as pessoas se afastam e não mais querem saber dela. Quero eu, para contemplar a finitude e mais querer aproveitar a vida enquanto for vida o que tenho dentro de mim.