
Arrasto-me para a mesa do pequeno-almoço (fruta, iogurte, sumo e chá) sob um sol, até que piedoso, e o canto das cigarras (como cantam!). Dali para uma aula de ginástica, para castigar os músculos pela mandriice de tantos anos.

Depois umas braçadas, que volta e meia repito, para logo a seguir me entregar, avidamente, à leitura do último romance de Miguel Sousa Tavares. Não tarda é hora de almoçar: peixe ou carnes brancas e saladas, muitos verdes, que jurei que hidratos de carbono só quando regressar a casa e há-de passar a ser apenas uma vez por semana. Doces nem vê-los… (quem diria deste lambareiro confesso!), guardados ficam para o dia de pecar.


Mais umas horas de leitura, de papo para o ar, até à caminhada ao final da tarde por entre vinhas e olivais, que é quando eles são aspergidos de ouro e se revelam mágicos, convidando à quietude e reflexão.



Só não digo que é uma espécie de “sunset party”, como agora se usa, porque me recuso a ser colonizado por outra língua quando tanto me orgulho pela nossa ser tão rica. E depois gosto da expressão “pôr do sol”, como que a anunciar a sua deita, sabendo que nesse momento se estará a levantar noutra dobra do Mundo. Mas que é festa, e dos sentidos, lá isso é. Tantos os aromas que inebriam, como o do alecrim, o da alfazema, o da camomila ou o do jasmim. Tão longes os horizontes onde pousamos o olhar e acalmamos a alma. E logo eu que me tenho como pouco contemplativo.


É que o tempo é mais tempo, quando se está longe da confusão. É nestas alturas que prometo não me perder em sentimentos menores, ser melhor do que fui, para ganhar, de novo, o caminho.

Não falta muito para a lua se apoderar da noite. Calam-se as cigarras e é, agora, a vez dos grilos afinarem seu canto. É a natureza a triunfar.

Depois destes últimos cinco dias de “dolce fare niente” (será mesmo?), sigo amanhã viagem para a cidade aberta, de tão desmesurada que é em tudo e sobretudo na Arte. É nela que morro para renascer!



