Confesso que não era dado ao rap, as minhas músicas são outras, mas havia no puto qualquer coisa que me fazia ficar agarrado ao ecrã, quando através do “zapping” me encontrava com o “Factor X”. Logo compreendi que era pelo discurso rítmico que devia ir, tal a densidade e pertinência do que cantava, num jogo de palavras e de imagens poéticas pouco habituais para quem tem dezassete anos. Não ganhou a competição, ficando-se pelo terceiro dos lugares de cima, mas conquistou a admiração geral, da miudagem e dos graúdos, e isso mesmo pude constatar hoje na cidade do Porto, quando com ele andei por alguns locais que lhe são caros, pelas mais variadas razões. “Puto és grande”, foi o que mais ouvi.

Começámos em casa com a mãe Ana e com a avó Cândida, a mulher da sua vida e por isso se diz “filho da avó”, que Ana passava o tempo, quase todo, fora a trabalhar. Tinha de ser. Do pai agradece-lhe a ausência: “…sei que se tivesse estado eu não seria a pessoa que sou hoje.” Sentamo-nos no quarto onde despertou para as rimas e que ainda é o seu mundo, sempre que ao Porto regressa. O jeito de rimar terá herdado da avó, se bem que as dela fossem diferentes, mais românticas, eram outros tempos. Talvez por isso não tenha ao inicio gostado do que o neto escrevia e sobretudo do ritmo. “Sabe, eu gosto de Julio Iglesias, de Marco Paulo… mas agora já me habituei”, diz-me a Candidinha, como gosta de ser chamada, nos seus lúcidos oitenta e um anos, “Mas tenho tanto orgulho no Diogo!”. Di-lo consciente do trabalho feito ao longo dos anos, que apesar de poucos parecem muitos pela maturidade com que o neto “rapa”.

“…és fonte de inspiração, dedicação, motivação/ tu me obrigas a estudar/ me fazes aprender/ Diogo para rimares/ tens de saber ler e escrever”.
À porta da escola secundária Fontes Pereira de Melo lembrou a importância da formação. Não a descurou, apesar de gostar e de aproveitar todas as pausas, recreios e furos, sempre para compor as suas rimas, com o que o lhe enchia a cabeça. “Quanto mais souberes/mais podes sonhar/até porque o saber não ocupa lugar…”
Ainda passámos pelo IPO, para lembrar o sorriso e a força das crianças ali internadas. “Aquelas crianças tentam viver a vida e aproveitar o melhor dela, apesar de terem cancro. Vi miúdos internados que adoravam andar de skate. Como não podiam fazê-lo, arranjaram uma alternativa: pegaram no suporte do soro e andaram a correr pelos corredores, a dizer que estavam a andar de skate… e ninguém lhes tirou esse prazer”. Foi a pensar nelas e para elas que escreveu: “…se te sentes só na caminhada/segues a estrada e ouves este som/sorrir é confiança e esperança/ sorrir, é o teu maior dom”.

Acabámos com o mar nos olhos, junto ao Castelo do Queijo. O mar que nos leva tão longe quanto a imaginação permite. Não há limites para o sonho. É preciso é querer. “Querer tem seis letras. Tens de querer com as seis. Não queiras só com a primeira. O erro das pessoas é que querem só com a primeira letra…”. Possivelmente teria sido isto que o Diogo queria dizer ao pirralho que um dia se lhe agarrou à cintura a perguntar-lhe como é que ele tinha conseguido. É que a história dele era igual: havia sido abandonado pelo pai, a mãe andava a trabalhar e ele também queria conseguir. Não fossem as lágrimas em que os dois se abraçaram, ter-lhe-ia dito: “Podes ser o que tu quiseres!”.

Poderá ver tudo isto e muito mais na próxima sexta-feira, dia 5 de Junho, na reportagem que fizemos, a propósito do livro “Podes ser o que tu quiseres” (edição Oficina do Livro), no “Você na TV”.


