
Confesso que não sou de ir em Carnavais, não faz o meu género, mas não deixo por isso de me interessar pela celebração no que ela comporta de elementos e significações. Não se pense que o ciclo do Carnaval se circunscreve apenas aos três dias que vão do Domingo Gordo à Terça de
todas as folias, tudo começa, em vários pontos do país, ilhas incluídas, com os dias “dos Compadres” e das “Comadres”, sempre à quinta, nalgumas localidades é ou, pelo menos, era logo a seguir aos Reis, com uns e outros feitos bonecos de palha e roupas velhas.
Até nos manjares a quadra tem que se lhe diga, que os há fartos e melhorados, com prevalência da carne e sobretudo da de reco. Aprendi no Porto, quando por lá me quedei com agrado, que a orelheira é obrigatória, por isso de venda exibida em tudo quanto seja talho, e o ideal é cozinhá-la com feijão branco, mas também pode ir a focinheira, o rabo ou o pé. Todos os excessos são permitidos, até os da mesa, ou não fosse do povo o dito que “no Entrudo, se come tudo”.
É o adeus à carne, que enterrado o Entrudo, logo sobrariam quarenta dias de abstinência para se levar a sério, e com devoção, até aos repiques de aleluia. No que toca aos doces são dias de se fazerem filhoses e outros fritos, isto consoante a região. Terá toda a festança, diz quem sobre isso estudou, a ver também com práticas antigas de expulsão das malignidades do Inverno, quando o tempo novo não tarda(va).
Também as folias são diversas, consoante as localidades, e se algumas importam modelos mais tropicais e que nada têm a ver com a nossa tradição, outras mantêm-se fieis às mascaradas e trapalhices. Pena que entretanto muito se tenha perdido, como as cegadas da capital.
Torres Vedras diz ter dos Carnavais mais antigos e a atestá-lo há documentos do tempo de D. Sebastião que já falam das brincadeiras populares. Com o surgimento da imprensa local, em finais do século XIX, passaram a ser habituais as noticias sobre o Carnaval de Torres, ainda que longe do que é hoje, cartaz turístico que atrai forasteiros de toda a parte.
O Carnaval de Torres tem sempre um tema escolhido atempadamente e divulgado à cidade através de um monumento alusivo que se inaugura com festa rija semanas antes do começo da folia. Este ano o tema é “Figuras e Figurões”, da política, do desporto, da sociedade em geral e tanto me falaram do monumento que quis ir ver com os meus próprios olhos.




Reconheci Cavaco e Mário Soares, na ala do reumático, lado a lado com Salazar ou, melhor, com o seu fantasma. Olha o António Costa, lá no alto junto ao Presidente da autarquia, a “gozar o pratinho”, que cá em baixo Coelho e Portas acertam o passo, como que a dizerem “tão
felizes que já nós fomos”. Que ao PAF deu-se um PUF, como quem leva chá de sumiço. E até Angela Merkl se faz presente, talvez para controlar os gastos, com Hollande e Sarkozy à ilharga.



No palanque, que domina a Praça da República, reconhecem-se outras figurinhas, como José Castelo Branco e sua Lady, isto no domínio do dito jet-set ou coisa que o valha, porque no que diz respeito ao desporto é um ver-se-te-avias de figurões: Pinto da Costa, Jorge Jesus, Luis Filipe Vieira, Bruno de Carvalho, José Mourinho… todos sem “tugir nem mugir”, que é coisa nunca vista.



Só não consegui perceber quem é este que se apresenta ao centro, de calças azuis, a fazerem pandã com as lunetas, casaco rosa, borboleta feérica e cabelo eriçado. Por certo um cromo… mas dos que não há para a troca!
E viva o Carnaval de Torres Vedras!
Poderá ver amanhã a reportagem no Você na TV.


