Do hambúrguer ao bolo de chocolate

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Eu sabia que ninguém ficaria indiferente ao Pedro Jorge, pela sua graça natural, pelas suas respostas espertas e oportunas, pela sua genuína bondade face aos colegas, pelo seu carisma. O programa de estreia terá sido sem dúvida marcado por ele, transformando-o já num dos favoritos do público, a fazer fé em muito do que li nas redes sociais, mas ainda estamos no começo da aventura que é o MasterChef Junior, a pouco e pouco outros concorrentes destacar-se-ão pela inteligência, pela espontaneidade, pelo talento culinário. E não nos esqueçamos que esta, acima de tudo o que possa enriquecer o espectáculo televisivo, é uma competição culinária. Não foi à toa que estes dezoito concorrentes foram escolhidos, tendo ultrapassado várias selecções, neles reconhecemos capacidades para chegarem longe na competição.

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Esta noite, por exemplo, entre outros casos, ficou claro que a Rosarinho, a jovem da Guarda, domina a técnica da pastelaria ao mesmo tempo que mostra ser metódica, organizada, cuidadosa, não cedendo à pressão em momento algum. O seu bolo de chocolate foi do melhor que qualquer um dos jurados alguma vez provou e por isso na prova de eliminação ela foi a mais pontuada.

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O segundo programa começaria a ser gravado dois dias antes desta prova de eliminação. Reservámos sempre os fins de semana para tal, alargando-os por mais um dia, para que o rendimento escolar dos concorrentes não se viesse a ressentir com as gravações. Segundo os respectivos pais as notas foram mantidas, quando não mesmo melhoradas, independentemente das horas de gravação e das viagens de ida e volta, nalguns casos, bem extenuantes . A Maria, por exemplo, levava seis horas e meia a chegar a casa, em Alfândega da Fé, mas nunca perdeu o seu humor e brilho, semana após semana. Com ela, aliás, mantive, uma conversa hilária quando me vi obrigado a vestir jaleca e a meter ” mãos na massa”, no primeiro desafio de equipas no exterior, tal a confusão instalada na cozinha improvisada no “Nirvana Estúdios” (um espaço muito interessante, às portas da cidade, ligado à música). Fazia frio e se chovia, mas nada que esmorecesse a boa disposição dos concorrentes.

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Para ajudar à festa tanto eu como os Chefs Rui Paula e Miguel Rocha Vieira mascarámos-nos, procurando homenagear algumas vedetas do “rock and roll”. Foi o delírio da pequenada quando aparecemos naqueles preparos para lhes apresentar a prova. Pior foi depois quando escolhidas as equipas, começaram a cozinhar, tendo em vista um almoço a ser servido a sessenta e uma pessoas, de entre as quais a cantora Áurea, a sua banda, a sua equipa de trabalho e convidados. Claro que o Pedro Jorge só podia escolher o lombo de porco (chicha é com ele, como faz questão de frisar) de entre as proteínas à disposição, privilégio de vencedor, dado na prova anterior, a dos hambúrgueres, ter-nos conquistado com um de carne de porco com alheira, cogumelos e tomate seco. Já o Gonçalo, o segundo melhor na prova dos hambúrgueres, fiou com a pescada e a liderança (esperava-se) da equipa azul. Era de esperar a bagunça, por ser aquela a primeira vez que trabalhavam em equipas e com as contingências de uma cozinha improvisada e que lhes era estranha. Os Chefs estavam já a contar em ajudar, eu é que não fazia ideia que também teria de meter as “mãos na massa”. Era inevitável perante a desorientação: havia ainda que preparar acompanhamentos (cuscuz legumes para a carne, açorda para o peixe) e as sobremesas: torta de laranja, na equipa vermelha, farófias, na equipa azul. E é nesse “corre-corre”, entre uma e outra bancadas, que a dado momento me vejo à conversa com a Maria, falando de trapos e acessórios. Dizia ela gostar muito dos laços que tenho usado e que fazia questão de desenhar um para mim, ela que tem paixão pela moda. O seu sonho é ser criadora de moda. A ver vamos se com o correr do programa, não muda de objectivos (fixe o que lhe digo!). Mal eu sabia que semanas depois estaria ela a mover uma quase “cruzada” contra o facto de eu usar jeans. Não houve dia que não dissesse e tê-lo-á mesmo gravado em depoimento, que um “senhor como o tio Goucha não pode usar jeans”.

Muito do que se passou em gravações por certo não será emitido. Já lho disse em edições anteriores mas vem a propósito repeti-lo: as quinze horas (repartidas por três dias) que leva a gravar cada programa, são condensadas em hora e meia, o tempo de cada episódio. Imagine só o que fica por mostrar. Por isso, a edição é tão importante e decisiva num programa como o MasterChef, seja ele de miúdos ou de graúdos. Doze editores tem por função cozinhar cada programa a partir das imagens gravadas. E assim se constrói toda uma narrativa televisiva a partir do quanto se passou na cozinha do MasterChef e nas provas de exteriores. Fascinante, sem dúvida!

Por isso também quero nestes textos desfiar momentos que fixei na altura e que porventura não passaram no produto acabado e servido.

Quanto às gulodices do desafio de equipas a torta de laranja mostrou-se ao mais alto nível, untuosa e suculenta. O mesmo não podemos dizer das farófias, logo farófias de que gosto tanto, por demérito do creme de gemas que, por engano do capitão Gonçalo, terá levado amido a mais. Decidiram quantos provaram sobremesas e pratos de sustança dar porém a vitória à equipa azul, pela qualidade do prato do peixe e sua açorda.

Nove jovens concorrentes ficaram felizes por se saberem na terceira semana de competição, outros tantos inconsoláveis por acharem que mereciam ter ganhado o desafio (ainda por cima com uma torta de truz!). Bem que a Áurea cantou para eles, mas as lágrimas levaram a melhor.

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Enxugado o desânimo, no dia seguinte era como se nada tivesse acontecido. É impressionante a capacidade de regeneração destes miúdos. Ao serem brindados na cozinha do MasterChef com uma chuva de gomas, em jeito de celebração pelo primeiro desafio de equipas superado com brio, entregaram-se de imediato à brincadeira e logo o estúdio virou um campo de batalha. Fomos bombardeados com gomas, nós os jurados, como se fossemos todos da mesma idade. E pensar eu, impenitente guloso, que o que eles quereriam era apanhá-las e comê-las.

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Este segundo programa ficou igualmente marcado pela visita da Rita Neto e do Manuel Fernandes, vencedores, respectivamente, do primeiro e do segundo MasterChef Portugal. Se a Rita está trabalhar como pasteleira no belíssimo restaurante Boa nova, do Chef Rui Paula, em Leça da Palmeira o Manuel está prestes a concluir a sua formação de nove meses em cozinha e pastelaria na escola “Cordon Bleu”, em Madrid, prémio maior das edições que concluíram vitoriosos. Curioso é sabê-los arquitectos, com esta paixão comum pela cozinha, a mesma que lhes apontou novos caminhos profissionais. Quando falamos, agora, de jovens concorrentes com idades entre os oito e os doze anos, a cozinha surge como tarefa doméstica, de apoio familiar, mas também como uma aventura empolgante em que cada um procura superar-se e mostrar que sabe fazer. Vê-los no manuseio de facas e produtos, com uma destreza invejável é de deixar qualquer um embasbacado. Eu próprio tenho dificuldade em picar cebola, do jeito profissional, e sem “choraminguices”.

Dois concorrentes acabaram por sair: a Gabriela e o Francisco, os menos pontuados no cômputo geral das provas. É sempre um momento de lágrimas, percebi com o correr das gravações que mais por deixaram os amigos, que entretanto fizeram, que propriamente, por se verem fora da competição. Soube mais tarde que mantinham contacto uns com os outros, consoante as afinidades que estabeleceram, coisa fácil hoje em dia com o que de tecnológico têm ao seu dispôr.

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Ainda houve tempo para cada um dos três jurados gravar imagens que já viram usadas no genérico do programa. Coube-me, lambareiro assumido, soprar polvilho de açúcar sobre uma torre de bolos, recheados de chantilly e frutos. Até com isso me diverti, a ponto de, como quem não quer a coisa, meter dedo no creme branco e lamber os beiços.

Para a semana:

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Vai a ser pequena Leonor a dar nas vistas, pela afoiteza com que amanha as enguias. Foi a própria a pedi-las vivas à produção! Sara Prata, uma das mais talentosas actrizes da nova geração, aceita o desafio que lhe colocámos, tal qual fosse uma concorrente. Prepare-se ainda para uma viagem pelo país sem sair da cozinha do MasterChef. Tanto num único programa. Até lá!

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