Desejo(s)

Era sabido que se a semana corresse sem safadezas cada um ganharia a sua tablete de chocolate, uma tira tentadora vestida de prata ourada listada a azul ou a vermelho. A coisa nem sempre corria bem, eramos dois rapazelhos com ginete, talvez eu fosse mais atinado entre leituras e o” faz de conta” que era apresentador ou professor, as brincadeiras mais frequentes sempre com parceiros ou plateias imaginárias, mas em fervendo castigo nenhum ficava a rir e do tão esperado chocolate, népia.

Havia lápis grandes de chocolate. Guarda-chuvas de chocolate. Cigarros, perversamente, de chocolate, até o Pai Natal dava para nos lambuzarmos. Havia coelhinhos de chocolate, os tais que iam com o velho das barbas ao circo. Chocolate para comer com pão. Chocolate e mais chocolate. Até o pinheiro da festa podia ser vestido só com chocolates. Foi o Quim Barreiros que um dia me contou que era assim na sua casa. Garoto safado, conseguia dar conta deles antes da noite natalina deixando no pinheiro as pratas ocas mas direitinhas. Levou poucas levou, quando a mãe deu pela marosca. Com o Belleville se fazia mousse e bolos para a festa, nenhum outro o batia. Mas do que eu gostava, já que estou numa de recordar, era de “ir aos furinhos”. Ainda está para me sair a bola dourada, ou seja, a tablete mais desejada, nem a prateada alguma vez me tocou, pretas, essas sim mais que muitas, também pudera era o mais corriqueiro dos prémios. Lembrei-me agora que nisto talvez tenha saído ao meu pai, era doido por chocolates e na sua casa, onde morava o desafogo, havia sempre uma gaveta cheia deles, era só escolher. Tantos anos depois, talvez os chocolates já não sejam o que eram, digo eu, que acho que os guarda-chuvas estão minorcas e não é por eu ter crescido, mas o nome Regina continua a fazer-me salivar de desejo. E acabou-se o escrito, que agora apetece-me algo e acho que não tenho cá por casa… Ah! Já sei… vai um Magnum… de CHOCOLATE!