Coisas do Céu na Terra

Quando soube que Sousel ia ter um Museu dos Cristos fiquei numa excitação danada por me parecer um projecto museológico diferente capaz de atrair a curiosidade e o interesse de quem como eu aprecia, e muito, as representações artísticas da Fé, ainda por cima a uma vintena de quilómetros do meu monte, prova da variedade que este Alentejo tem para oferecer, para além dos seus gabados comeres e beberes. Por muito que deles goste (ai o pão, o queijo, as migas, as açordas …os doces de monja, o vinho…)prefiro alimentar o espirito, perdendo o olhar nos campos sem fim, escutando os que sabem da terra, da chuva, do vento, entrando em espaços de recolhimento e oração onde a Arte é para todos, por isso quis logo saber para quando eu poderia agendar a visita e qual a origem do espólio. Isto foi há uns dois anos, lembro-me de, então, ter falado com uma gentil funcionária da câmara que me foi explicando que aquele era um sonho de anos da autarquia desde o momento em que tinham adquirido uma colecção privada de Cristos, junto dos herdeiros de Wenceslau Lobo, antiquário de Borba, terra deles, e apaixonado coleccionador. Desta forma evitou a Câmara de Sousel que a importante e valiosa colecção de 1486 peças, das mais variadas proveniências e épocas, fosse parar à estranja, que havia interessados na Alemanha, ou que acabasse por se dispersar entre partilhas e sumiços. Mais me disse: que depois de comprada e acondicionada em caixotes esteve guardada nas instalações da GNR, à espera de inventariação, pesquisa, estudo e conservação, faltando por fim o espaço para a dar a conhecer.

Passaram 27 anos entre a aquisição da colecção e a inauguração do Museu que hoje ocorreu, finalmente. Porque fujo de cerimónias formais e protocolares como “diabo da cruz” pedi ontem que me deixassem entrar no Museu, no que fui pronta e amavelmente atendido, para com a tranquilidade possível entre os preparativos que se ultimavam, poder apreciar os cento e oitenta Cristos expostos num espaço pensado para o efeito e onde antes havia sido um centro cultural. Guiou-me a historiadora e museóloga Ana Isabel Machadinha que com indisfarçável orgulho me foi explicando os seis núcleos de peças, entre eruditas e populares, em que a exposição se organiza. Em dezassete anos deu muito de si, do seu saber e estudo, em estreita colaboração com o Museu Nacional de Arte Antiga e o Museu Machado de Castro. Bem que podem, ela e todos os que tornaram possível esta obra sentir-se vaidosos.

Sousel ganha assim mais um pólo cultural de inegável interesse e valor. Agora é a nossa vez de o honrar, visitando-o e divulgando-o. Não vejo a hora de voltar, que hoje, neste dia de júbilo para os souselenses e demais alentejanos, o que quis foi ser dos primeiros a dá-lo a conhecer na blogosfera, pela orgulho que tenho neste que sinto também como meu chão.