Auschwitz, uma fábrica de morte

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São estas fotos a memória da ignomínia e do terror, por isso a preto e branco. Lembrando um submundo de sombras e pesadelo. Só alguns, poucos, viram a cor da liberdade naquele 27 de Janeiro de 1945, há setenta anos, quando o campo foi libertado, e mesmo esses tiveram de aprender a começar uma nova existência. Nem todos conseguiram fugir do passado, profundas que eram as marcas do horror e da bestialidade. Só ali mais de um milhão de prisioneiros havia sido exterminado, com requintes de sadismo e crueldade. Os campos de Auschwitz revelaram-se uma eficaz fábrica de morte, respondendo à vontade de Hitler em erradicar da face da Europa o povo judeu e quantos se opunham à política do Terceiro Reich.

(Veja a reportagem completa no final do artigo)

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Auschwitz evoca mais de quarenta campos de morte, só na massacrada Polónia, e toda a barbárie de que o homem é capaz. Por isso, e cada vez mais, é importante não esquecer. Os genocídios não acabaram e há quem queira quartar a nossa liberdade.

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“Os piolhos, a sarna, a falta de água potável não era o pior. Não se pode calar o tormento diário, asqueroso e repugnante que eram as latrinas. Uma retrete dava serviço a milhares de mulheres”. (1)

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“Assistia à entrada dos vagões e pensava que a sorte dos que chegavam se confundia com a minha. Talvez não me arriscasse a ser gaseado, mas poderia levar com uma bala na testa, se me recusasse a fazer o meu trabalho. Era uma questão de sobrevivência”. (2)

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“As câmaras de gás davam a ideia de serem salas de duches. Inicialmente as pessoas não se apercebiam da verdade. Quando uns três quartos da sala estavam já cheios, aí sim, as pessoas tentavam recuar e sair, pelo que eram brutalmente impedidas pelos SS. As equipas de gaseamento eram exclusivamente constituídas por SS, nós éramos afectos apenas à cremação. Homens e mulheres despiam-se juntos, algumas pessoas procuravam cobrir-se com as mãos, mas o pudor não fazia ali grande sentido. Os deportados sentir-se-iam felizes por se lavarem e descansar, uma vez que era isso que lhes prometiam à chegada ao campo, depois de uma longa viagem num vagão de gado. Mal entravam nas câmaras de gás, começávamos a separar os seus pertences e a enviá-los em camiões para o Canadá (nome dado aos depósitos dos bens roubados às vítimas do extermínio. Canadá era sinónimo de prosperidade. Os bens eram depois triados, desinfectados e enviados para a Alemanha). Após o gaseamento, e antes da cremação, tínhamos de lhes arrancar os dentes de ouro e de lhes cortar os cabelos”. (3)

Guardas SS derretiam os metais preciosos antes de os enviar para o exterior, ao passo que os cabelos eram usados, por exemplo, na indústria têxtil. Em Auschwitz foram encontradas, à data da libertação do campo, sete toneladas de cabelos devidamente embalados e prontos a seguir para as unidades industriais.

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“As latas de Ziklon B eram levadas para a câmara de gás por uma ambulância marcada com uma cruz vermelha. Os deportados, acabados de chegar, ao verem a ambulância, sentiam-se mais confiantes, julgando contar com ajuda médica”. (4)

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“Em Auschwitz I, o crematório, que ainda existe, era dos mais rudimentares. Também os 4 e 5 em Auschwitz II (Birkenau) foram mal concebidos. Quando chegavam três grupos de 1000 deportados cada, num só dia, para gasear e incinerar, éramos incapazes de seguir a cadência, mesmo se fossemos três equipas a trabalhar. Já os fornos 2 e 3 eram mais modernos e eficazes. Graças a uma maior ventilação, as chamas alimentavam-se da gordura dos cadáveres e a cremação não demorava muito tempo. Quinze a vinte minutos. Quando os fornos não davam vazão, queimavam-se pilhas de cadáveres dentro de fossas de metro e meio de profundidade. As chamas chegavam a ter três metros de altura. À noite podia-se ler um livro à luz das chamas. Há sobreviventes que dizem nos identificar (aos elementos do SonderKommando) pelo cheiro. Com efeito, ficávamos impregnados pelo cheiro do fumo. Alguns de nós utilizavam cosméticos na sua higiene para o disfarçar. Eu não! Nem o mais luxuoso dos perfumes franceses seria eficaz!”.(5)

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Auschwitz era o fim da linha, o fim da Vida. Mais de um milhão de judeus saíram dali em cinzas, deitadas ao rio Vístula.

“Todos os dias me recordo da incineração dos cadáveres e do arrancamento dos dentes. Para onde quer que vá, quando como, durmo, danço ou canto tenho em mim todas essas imagens. É impossível apagá-las. Elas estão no meu sangue. No meu corpo”.(6)

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(1) – Nas memórias de uma prisioneira política polaca em Auschwitz: Zofia Kossak-Szcucka.

(2)(3)(4)(5)(6) – Testemunhos de Henrick Mandelbaum, deportado no campo de Auschwitz II (Birkenau), com o número 181970. Mandelbaum, judeu polaco, fez parte de um “SonderKommando” (comando da morte):”… recusar trabalhar num comando da morte seria condenar-me a uma execução imediata com uma bala na testa. Só pensava em sobreviver!”. Até ao seu falecimento, a 17 de Junho de 2008, Henrick Mandelbaum contou quanto conheceu da máquina homicida nazi, perante as mais diversas plateias e em todo o mundo.

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Nota final:

Estive pela primeira vez em Auschwitz há nove anos e lembro-me de ter pensado que teria de voltar e com uma câmara. Fi-lo agora, setenta anos após a libertação dos campos de extermínio nazi. E o resultado poderá ser visto em breve no Você na TV, para que a inexorabilidade do tempo não apague a memória.

Actualização (07.12.2015) – Aqui fica a reportagem completa: