
Desta é que foi, voltei a entrar no Teatro Bernardim Ribeiro, em Estremoz, quarenta anos depois de ali ter subido ao palco, como actor e integrando a companhia Teatro do Povo, de Pedro Pinheiro, no decorrer de uma digressão feita por todo o país com uma das suas peças, qual delas é que não consigo precisar. Ficou-me na memória a beleza daquele teatro à italiana, por onde já passaram os maiores da cena portuguesa de todos os tempos, e sempre que ia à cidade branca passava por lá a caminho do Rossio das feiras de sábado, procurando espreitar a sala, mas em vão, que talvez pela hora o Teatro estava sempre fechado. Já disso lhe tinha dado conta aqui mesmo neste blogue, acho que em Maio passado que foi quando comecei a fazer daquele Alentejo poiso certo para me sentir feliz. Agora sim, perguntei no Turismo como fazer para revisitar o Teatro e logo me disseram que é tanta a programação da sala, entre cinema, teatro, concertos e até ópera, que certamente aquela hora estaria aberto para a venda de bilhetes, mas que não fosse por isso, telefonema feito e logo haveria quem me recebesse e guiasse. Assim foi, bem que queria ali voltar, tão boa impressão aquela sala me havia causado, sendo que do que mais me recordava era dos medalhões pintados que decoravam uma das frisas, celebrando nomes grandes do teatro dos inícios do século passado. Tudo está num brinco, folguei em vê-lo, jóia que é da cidade. Avivaram-se os ourados, instalou-se plateia nova e equipou-se o palco, com o que de melhor há, ainda que se mantendo parte da estrutura de madeira original. Até a pintura de Benvindo Cela, exímio artista portalegrense, que sempre brilhou a grande altura, foi restaurada com talento, minúcia e respeito pelo original, ou não tivesse o exigente trabalho ficado a cargo de Gonçalo Jordão, artista plástico também ele alentejano, que no ano passado andou “nas bocas do mundo” por ter feito parte da equipa ganhadora do “óscar para a melhor cenografia” pelo trabalho no filme “Grande Hotel Budapeste”. Saber que ali tudo começou há praticamente cem anos, a 22 de Julho de 1922, com a Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro levando à cena o poderoso drama rural “Entre Giestas” de Carlos Selvagem, que a própria Amélia Rey Colaço disse muito ter gostado de fazer, e que esse passado se mantém honrado por quem cuida deste património com desvelo e orgulho, conforta quem como eu tanto estima estes “santuários” da palavra e da representação.



