Já houve quem dissesse que o Mundo se dividia em dois tipos de pessoas: os que gostam de Veneza e os que não gostam. Pertenço ao primeiro dos grupos, é claro, e o verbo é acanhado para exprimir o que sinto sempre que volto à cidade encantada.

Não que tenha sido, propriamente, agradável a primeira imagem que dela guardo: um sofá relho a boiar nas águas de um dos seus inúmeros canais. Tampouco o primeiro contacto com os venezianos marcado negativamente por um “overbooking” no hotel previamente reservado e que me atirou, por uma noite, para uma unidade de categoria duvidosa… mas tudo se haveria de compor, no dia a seguir, e de que maneira!

Acabei no “Cipriani”, um dos mais famosos e luxuosos hotéis do Mundo, sem que tivesse de desembolsar um cêntimo a mais. É direito que nos assiste enquanto consumidores e viajantes, este de sermos hospedados numa unidade de igual ou superior categoria da que havíamos reservado, quando perante uma situação de “overbooking” (como eu detesto estes estrangeirismos!) a que somos completamente alheios.
Já agora, em jeito de mera curiosidade: sabe ao lado de quem fiz o “check-in” (outro, arre!)? Nem mais nem menos do que… Cláudia Schiffer. E não é que olhei para ela, ostensivamente, à espera de um sorriso, por muito amarelento que fosse? Como se ela me conhecesse de algum lado!… Ignorou-me completamente, como seria de esperar, mas foi este episódio que fez com que eu passasse a ter um outro cuidado com quantos se cruzam comigo e esperam de mim um sinal de simpatia. Um sorriso não se recusa, quando entramos na casa de milhares à conta do nosso trabalho público. É como se fossemos da família.

Mas voltemos ao que importa: Veneza, a cidade das águas. Que se rasgam às mãos dos gondoleiros e de muitos outros barqueiros. Tenho seus caminhos marcados na memória e na alma, tal o espanto com que os repito sempre que regresso. Gosto da Praça de São Marcos, quando sobre a cidade desce a luz morna do entardecer, quando já não há pombos nem turistas e a esplanada do Florian é, a bem dizer, para uns quantos afortunados. Mais tarde, gosto de me perder no seu labirinto de becos e ruelas, desdobrando íntimos sonhos de encontros impossíveis, por não serem deste tempo e da minha condição (Casanova, Canalletto, Tintoretto, Vivaldi…). Não estou só… tenho os gatos da cidade e as sombras que passeiam na noite. O silêncio é de brancas orações. Não tenho pressa e nada receio.

Gosto do Grande Canal, essa imensa avenida líquida onde se cruzam emoções, risos e alegrias, bordejada pela nobreza decadente dos palácios ainda com vida.


É toda uma cidade tocada pelos deuses, única, maior, impossível de arremedar… e onde encontro a paz que nem sempre tenho.



