13, o número da sorte… e do azar!

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Esta foi a foto que publiquei há dias para promover no meu mural do facebook o episódio do MasterChef que acabaram de ver. Ela diz respeito à primeira prova do programa, a da caixa mistério, que exigia que os concorrentes preparassem uma receita usando partes de uma cabeça de porco. “Nojo, barbaridade, exposição de animais mortos como troféus”… tudo valeu para criticar a minha publicação, chegando-se ao ponto de pôr em causa a minha honestidade enquanto defensor dos direitos dos animais. Compreendo que a fotografia possa ter chocado quantos se recusam a comer alimentos de origem animal, seguindo outros regimes alimentares bem diferentes do meu e do da maioria. Pessoas que certamente se recusam a entrar num qualquer talho, onde a cabeça de porco se exibe tal e qual, inteira ou em metades, ou num mercado de peixe, onde as diversas espécies se mostram de olhos brilhantes, guelras avermelhadas… enfim, com sinais de fresquidão.

Sei o que é pertencer a uma minoria, ainda que nunca tenha usado do achincalho nem depurulentos argumentos para reclamar respeito para com as minhas diferenças. Não aceito é que me queiram catequizar. Sou como sou e não como gostariam que fosse. Com muitas dúvidas e contradições com certeza, mas respeitador da liberdade alheia. O mural onde publiquei a dita foto, tal como este blogue, são meus, espaços livres do meu pensar, do meu querer, da minha forma de estar e de ser. Abomino todo e qualquer fundamentalismo, por pretender asfixiar aquilo que tenho como vital: a liberdade. Sou dos que come carne e peixe, e não me venham dizer que tal regime alimentar nega a defesa dos direitos dos animais. Não gosto de “puxar dos galões”, mas lá vai ter que ser: quem usa o seu trabalho como tribuna para denunciar situações de abandono e de maus tratos? Quem, emprestando gratuitamente imagem a uma marca de prestígio como é a Pedigree, consegue assim doar toneladas, sim toneladas, de ração aos canis em dificuldades? Quem recolhe animais abandonados (cinco de sete) fazendo deles a sua “família”? Tenho a certeza que muitos dos que enfileiraram o coro de protestos mais não são que os mesmos falsos moralistas e hipócritas de sempre.

E depois convenhamos: MasterChef é uma competição de culinária, com provas criadas e regulamentadas internacionalmente. Não é um programa de decoração (para isso a TVI já tem o “Querido Mudei a Casa”). Desta vez o que se pedia era que cozinhassem com uma cabeça de porco, tal como já aconteceu noutros países. E assim foi: os concorrentes deram o seu melhor, atirando-se à cabeça como “gato a bofe”. Do reco, a Marta, uma das concorrentes mais expressivas, sobretudo na hora dos depoimentos, apresentou ao júri umas suculentas e muito saborosas bochechas, apesar do empratamento não ter sido dos mais apelativos. Já o João Macedo mais não conseguiu que automaticamente ficar escolhido para a prova de eliminação, dado o seu desaire culinário. É que o MasterChef tem destas coisas: quando se acha que se conhece e se domina todo o tipo de provas e regras, há sempre algo de inesperado que pode surgir e, até, subverter a própria competição. Os concorrentes que se preparem, que muito está para acontecer. Esse é também um dos aliciantes deste programa, até mesmo para quem como eu é (e apenas isso) jurado.

O melhor do programa estava para vir: o duelo de equipas, num cenário sempre escolhido com rigor. Desta vez ficámos por Lisboa, numa manhã que em frialdade rivalizou com a de Folgosinho,  mas empolgante por termos, assim, oportunidade de conhecer o Museu da Carris.  Que o programa sirva também, através destes exteriores, para estimular a curiosidade do público por este tipo de acervo. O Museu, inaugurado a 12 de Janeiro de 1999, propõe-nos uma viagem através da história da empresa e, consequentemente, do transporte urbano. A 12 de Setembro de 1872 é fundada, no Rio de Janeiro, a Companhia Carris de Ferro de Lisboa, sendo que quatro anos mais tarde a sua sede é transferida para a capital portuguesa. A história da Carris é marcada pela evolução do transporte público, a começar pelo “americano”, veículo de tracção animal, que se deslocava sobre carris,  depois, já no inicio do século XX, pelo carro eléctrico e mais tarde, nos idos de sessenta, pelo aparecimento dos autocarros. Andar um pouco num daqueles eléctricos, em madeira envernizada com assentos em palhinha e janelas amovíveis, não deixou de me emocionar, obrigado que fui a recuar à minha infância e até adolescência, se bem por essa altura já andasse mais nos autocarros verdes de dois andares, enormes e formidáveis aventesmas.

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Em cenário assim, o tema da prova só poderia ter a ver com Lisboa. Por isso o que se pediu às equipas foi que preparassem petiscos, como carapauzinhos fritos, daqueles que se come tudo da cabeça ao rabo, e peixinhos da horta, que é feijão-verde albardado, isto para preparar o estômago para outras suculências, também elas ligadas à capital, como ervilhas com ovos escalfados e fava miúda com entrecosto. Mas muito mais poderíamos ter sugerido, como os ovos verdes, as amêijoas à Bulhão Pato, as iscas com elas, as batatas, a meia desfeita de bacalhau, a perdiz à moda de Alcântara… e até a bifalhada de que Lisboa tem invejado historial, como o bife “à Marrare”, criado no “Marrare das Sete Portas”,  um dos cafés do napolitano António Marrare, sendo do pojadouro, frito em manteiga com molho enriquecido de natas, o bife “à Jansen”, da cervejaria do mesmo nome que foi em tempos na rua António Maria Cardoso, frito em banha com toucinho picado, o bife “à cortador”…

Para rematar, pasteis de nata, não os célebres de “Belém”, mas tal e qual os da “Manteigaria”, um novo e pujante negócio nascido no 2 da rua do Loreto, em pleno Chiado, onde era a antiga sede da Manteigaria União. Quem ali vai, e são às largas centenas fazendo fila ao longo do dia, diz que melhores não há. A sineta anuncia cada nova fornada e logo os pasteis desaparecem num abrir e fechar de olhos. Ganhei algumas embalagens dos ditos, devo confessar, e no dia seguinte ainda a massa “cantava”, de tão estaladiça que era, condição primeira para se avaliar da qualidade do pastel.

É claro que seria a sobremesa a dar cabo da cabeça, agora dos concorrentes, que o mais que se lhes pediu, afora a atrapalhação no escalfamento dos ovos, saiu a contento de quantos se sentaram às mesas, simpáticos e diligentes funcionários da empresa, entre “picas”, “guarda-freios” e não só. Não é pêra doce fazer massa folhada, tantas as voltas que ela leva entre cada adição de gordura, depois a Marita ainda se baralhou na dosagem do amido para o creme que se quer bem ligado e aveludado. Seria aliás a apreciação ao pastel de nata a ditar a vitoria de uma das equipas, dado que o mais da refeição merecia o empate verificado por decisão dos convidados. Ganhou a equipa vermelha. E lá foi a Silvia a mais uma prova de eliminação!

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Das águas geladas da Noruega para a cozinha do MasterChef: o salmão, um por concorrente, magnífico e saudável, rico em ácidos gordos, como o Ómega 3, tidos como benéficos para a saúde. Produto assim, superior, merecia um trio de luxo. Aos chefs Rui Paula e Miguel Rocha Vieira, queridos colegas de júri, juntou-se outro igualmente celebrado, Henrique Sá Pessoa, e foram eles a dar o exemplo, perante os concorrentes chamados à mais temível das provas.  Henrique filetou-o, Miguel preparou-o, Rui Paula empratou-o e eu comi-o. Perfeito! Já o mesmo não se pode dizer da prova do Macedo, que ao amassar o peixe, desrespeitando assim a qualidade do produto, se viu fora da competição, sendo pois a terceira baixa.

Dele recordo o prato servido na cozinha de preparação, memória da sua ascendência cabo-verdiana, um saboroso caldo de peixe. Com a mãe deu os primeiros passos na cozinha, mas a sua grande referência é o pai, capitão de mar-e-guerra. Ao lado dele adquiriu experiência nas messes da Marinha portuguesa. Ali se disciplinou e se apaixonou pela arte de cozinhar. Vou ter saudades do seu jeito gingão. E seguimos com doze!

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Na próxima semana:

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Prepare-se para uma viagem diferente de todas as que, até aqui, já fizemos: será uma viagem a tempos medievos, com provas duras, a exigir sangue-frio, num ambiente único, junto ao Convento de Cristo em Tomar. A mesa já está posta!

www.museudacarris.pt