Um almoço com Alma

Quando há um mês conversei, para o “Você na TV”, com Regina Duarte, entre nós, uma vez mais, agora com a peça “Bem vindo estranho”, ficou aprazado um almoço ou lanche para quando regressasse a Lisboa, depois de cumprida a agenda de espectáculos na Figueira da Foz e em Famalicão. Confesso que já tinha tirado daí o sentido, mais a mais estando prestes a entrar de férias, mas há dois dias fui surpreendido com a disponibilidade da actriz em almoçar comigo. Ia lá perder mais uma oportunidade de estar com quem admiro e me acrescenta. Como a própria o disse em jeito brincado, aquando da reportagem, temos “uma história”, que por sinal já lhe contei aqui no blogue.

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Sendo assim, atrasei a ida para férias e escolhi um restaurante que há muito queria conhecer, se bem que ele tivesse, entretanto, mudado de poiso e ainda bem, pois tenho a certeza que os comensais só ficaram a ganhar. Falo do “Alma”, do Chef Henrique Sá Pessoa, que a ideia era mostrar a Regina a moderna cozinha portuguesa, que o mais já ela conhece de tantas vindas, e nisso até eu tenho a minha quota parte de responsabilidade, que, entre outros, dei-lhe a conhecer o clássico “Portucale”, na cidade do Porto, isto há uns quinze anos, ainda o senhor Ernesto Azevedo oficiava na sala, ao mais alto nível.

Fica o “Alma” na rua Anchieta, ao Chiado, onde antes era um antigo armazém da Bertrand da esquina. Gosto do espaço e da sua inspiração monástica. Isto digo eu, que é o que me faz lembrar tanta largueza. E depois quase apetece comer em oração, dada a criatividade e qualidade do que nos é servido, não fora espumante a conversa entre todos.

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Éramos quatro à mesa, que para além da Regina vieram também os seus parceiros de tábuas, os jovens actores Mariana Loureiro e Kiko Bertholini, e o restaurante, a bem dizer, ficou só para nós. O “Alma” passou a servir almoços há meia dúzia de semanas, estando sempre cheio à noite. Tanto melhor, que assim ninguém ouviu o quanto dissemos, nomeadamente da política, da nossa e da deles, que isto em matéria de corrupção venha o Diabo e escolha. Mas seriam as impressões que levam do nosso país a dominar a conversa, ao longo de duas horas. Regina já há muito conhece a ternura dos portugueses, o arrebatamento do Douro vinhateiro, a virilidade do Porto, a feminilidade romântica da capital, mas não cala o quanto gosta, já os seus companheiros de palco mostram um deslumbramento virgem pelo que viram ao longo desta estada de dois meses que agora termina. A Lisboa, então, não regateiam gabos, pela luz, pelos recantos onde ainda resiste a tradição, pelo azul royal do céu, pelo Tejo das conquistas.

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Falámos de teatro, claro, de televisão e até de ópera. Éramos a dois passos do Teatro de São Carlos, e, ao perceber que nenhum dos três conhecia a nossa Casa da Ópera, logo envidei esforços para que do Chiado não fossemos sem nele entrarmos. Subimos ao palco, onde minutos antes a Orquestra do Teatro havia estado a ensaiar Bartok e Ravel. Admirámos a sala de finais de oitocentos, num triunfo de ouro velho e fomos ao camarote outrora real, hoje presidencial (ainda não foi usado pelo Presidente Marcelo, se bem que ele tire a assinatura anual do São Carlos, como melómano que é! Mais um ponto a seu favor, acrescento, que pelo canto lírico também me perco). Ao nosso encontro veio Carlos Vargas, que é quem dirige o São Carlos, convidando-nos simpaticamente a entrar no seu gabinete para logo nos contar que Junot, quando entrou na cidade, quis vir ao São Carlos e que esteve ali naquela sala. Na parede uma tela imortaliza a figura do general de Napoleão. Regina não se conteve e sublinhando com uma sonora gargalhada atirou: “é a cara chapada do Tony Ramos!”. Olhando com atenção sou levado a concordar com a parecença. Regina Duarte uma vez mais mostrou ali a sua paixão pela cultura e língua que une os nossos países. Lembrou Eça e quantas referências existem ao Teatro de São Carlos nos seus escritos, nomeadamente no “Primo Basílio”, quando os finais fatídicos de óperas como “A Traviata” e o “Trovador” adensam o epílogo não mais feliz da obra, com a morte de Luísa e da megera Juliana.

Percebem agora porque há pessoas que nos acrescentam? Pena que haja um imenso mar a separar-nos. Até à próxima Regina!

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6 comentários a “Um almoço com Alma

  1. Carla

    Manuel
    Almoço com pessoas com alma, sorrisos naturais, turtúlia de pessoas que sabem aproveitar a vida como se não houvesse amanhã. Gostei muito, lindo as palavras de Eça. Sabia que Eça de Queiroz com tantas obras mágnificas sofria de debilidade narcisíca?

    Já no fim da sua vida escreveu numa carta:
    “Tenho sempre uma enorme dúvida sobre se isto presta para alguma coisa”.
    Eça Queiroz

    Abraço
    Carla

    Responder
  2. Sidalina Baptista

    Boa Noite Manel Luís!

    Que bom nos dar a conhecer,estes maravilhosos encontros! A Regina Duarte é uma actriz de”mão cheia”,que sempre foi muito querida do público português,por todas as personagens fantásticas que interpretou.O Manel Luís,sabe como ninguém conduzir as entrevistas,em conversas íntimas,que nos comovem.Um beijo.

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  3. Maria Conceição Rocha Ferreira

    Boa Noite Manel, permita-me chamar-lhe assim?!
    Fiquei emocionada com suas palavras, tenho uma grande admiração pelo seu trabalho desde dos tempos da praça da Alegria, e sempre tive como o melhor apresentador de TV, não tirando mérito a outros que também são muito bons!Cada um a seu jeito! Mas o Manel é o Manel!Ponto destaca-se pela sua originalidade e sua naturalidade!
    Sou fã de Regina desde de pequena, fico emocionada de amar Regina como ela merece ser amada!Afinal todos nós temos uma história juntos! Ela fez parte da nossa vida enquanto estamos em família em nossas casas, ou entre amigos, ou até mesmo quando estávamos sós vendo a TV,fazendo as suas personagens como ninguém, de um talento inigualável! Uma celebridade admirando outra celebridade e vice-versa é de uma profunda humildade, respeito e amor à arte,do Atlântico fizeram uma ponte, mostrando que não há distância que vos separe e tempo que vos esqueça um ao outro! A Regina é de uma generosidade incalculável, eu que nada sou, digo isso porque não sou nenhuma celebridade, porque sou alguém óbvio, a Regina sabendo que era a Rochinha Ferreinha do instagram, comentava os seus posts à muito tempo, estando ela no Brasil, deu-me um abraço forte, e aí senti que ela abraça quem a abraça também…A Regina merece esse amor….Pela partilha de afectos que tem pelo próximo, pelo respeito que nela está incutido desde de menina e por transbordar amor em seu coração!
    Por isso …eu compreendo sua emoção!
    Regina …é Regina não só pelo seu dom da arte…talento ímpar…mas por ser Regina, Diva…Humilde, generosa, maravilhosa, um ser humano lindo!
    Impossível não ama-la !
    Um beijinhos aos dois! E VIVA O AMOR!
    Conceição Ferreira ou Rochinha Ferreirinha ou São…

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  4. Maria da Graça Freitas

    Manuel Luis,
    Adoro vir ao seu site Cabaré do Goucha pois, para além de ter muitas coisas de interesse, o Manuel Luis escreve e descreve tudo na perfeição, além disso gosto neste caso, do trabalho da Regina Duarte, e aprende-se muio consigo. Obrigada.

    Com um beijinho,

    Maria da Graça.

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