Sábado em Estremoz

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Sempre tive um carinho muito especial por Estremoz. Conheci a cidade, branca do casario e das jazidas de mármore, pela primeira vez em 1975. Eu era actor e, integrado no elenco da companhia Teatro do Povo, de Pedro Pinheiro, ali representei , não posso é precisar a peça, no seu Teatro Bernardim Ribeiro. Pena que desta o tenha encontrado fechado, que ainda recordo a beleza da sua sala à italiana, do início do século XX, com as suas pinturas decorativas, do artista portalegrense Benvindo Ceia, e onde pontificam medalhões pintados com os rostos de nomes importantes da dramaturgia nacional. Tal como haveria de acontecer noutras cidades, nomeadamente alentejanas, a construção da sala de espectáculos, com as devidas condições para a época, ficou a dever a um conjunto de notáveis da cidade. A inauguração deu-se a 22 de Julho de 1922 pela Companhia de Teatro de Amélia Rey-Colaço/Robles Monteiro, com a peça “Entre Giestas”.

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Lembro-me que fiquei hospedado na “Pousada da Rainha Santa Isabel” e que a primeira sensação foi de deslumbre pela imponência do local. Também pudera, integrada no Castelo, junto à Torre de Menagem, a Pousada resultou de uma magnífica adaptação do Palácio que D. Diniz mandou construir para sua mulher Isabel de Aragão. A este facto aliava-se todo o requinte da decoração, com peças valiosas de antiquários. A esta Pousada voltaria várias vezes na década de oitenta, enquanto apresentador da série televisiva dedicada à gastronomia, “Portugal de Faca e Garfo”, de Leonel Vieira, com textos inspirados de Afonso Praça. E foi então que conheci um casal do qual conservo as mais gratas memórias pela sua simpatia e pela paixão que devotavam, enquanto directores, a estas unidades hoteleiras de grande excelência que eram as Pousadas de Portugal. (Conceição e Luís Abílio). Haveria de os encontrar mais tarde, ele dirigindo a Pousada de Arraiolos ( também ela Monumento) e ela a de “Vale do Gaio”, no Torrão, entretanto extinta.

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Ainda desses idos lembro a qualidade, que me dizem agora perdida, do restaurante “Águias de Ouro”. Era o grande restaurante da cidade, isto nas décadas de setenta/ oitenta sob a direcção do senhor Panaças. A fachada mantém a sua teatralidade, com laivos de “arte nova”, se bem que em meu entender resulte numa grande salganhada e talvez por isso acabemos por a fotografar. Entretanto, a cidade ganhou outros projectos de qualidade gastronómica inquestionável: como o “São Rosas”, ” A adega do Isaías”, o “Gadanha”…Desta vez fui à “Cadeia Quinhentista”, no Castelo, uma feliz recuperação e transformação do antigo cárcere, de mil e seiscentos, em restaurante, por iniciativa de João Simões (sucessor de Luís Abílio na direcção da Pousada, ainda ela era da Enatur) e que aqui nos anfitria com bom gosto e muitas estórias. Gostámos do que provámos, entre petiscos (salada de favas novas com vinagreta de laranja, morcela assada, orelheira, peixinhos da horta..) entradas (coelho em escabeche…) e pratos de sustança (cachaço de porco na grelha, perdiz suada em azeite…). Desmesurado o séquito que acompanha a perdiz, o único senão do almoço, que castanhas, cozidas com erva-doce, espargos, cogumelos, túberas, pêra e frutos vermelhos é uma confusão de sabores que em nada ressalta, antes pelo contrário, o da protagonista do prato. Afora o reparo, dá gosto ficar ali recluso, pelo tempo da refeição.

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Cadeia Quinhentista

Rua de Santa Isabel

Telefone 268323400

www.cadeiaquinhentista.com

Mas o que desta me levou a Estremoz, foi a Feira de (muitas) Velharias e (poucas) Antiguidades, que em sendo sábado ali se realiza, no Rossio de todos os encontros, o do Marquês de Pombal. A cidade ganha então um bulício especial entre vendedores e possíveis clientes. Há de tudo à venda, das curiosidades aos objectos com história. Das banalidades ao verdadeiro achado. Melhor é ir com tempo, que o sábado convida à dolência e sabe bem demorar o olhar em cada uma das bancas, procurando adivinhar as estórias que cabem em cada objecto.

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Curiosamente o que dali trouxe nada tem a ver com tais vetustezes, mas sim com produtos que a terra dá para que à mesa possam triunfar em aroma e sabor. Havia espargos selvagens, dos verdes aos mais escuros, também chamados de pretos, de sabor mais intenso, túberas, gosto mais de as chamar de trufas brancas, que de trufas se tratam, queijos de ovelha, mais ou menos curtidos, frutos diversos, se bem que agora sejam os morangos os mais cobiçados, ervas de bom cheiro e tantas são, ou não fosse a planície pródiga de olores…

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Do Rossio saí ainda com braçadas de Limonium Sinuatum, que é esse o nome científico desta planta cuja flor dura,dura,dura… Ideal mesmo para alindar a sala e não mais me preocupar.

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Já ia crescida a manhã quando de um lados do Rossio vejo que se aproxima um cortejo de figuras galantes. Estava no programa, eu é que não sabia, que a cidade tem muitos eventos para animar munícipes e forasteiros. À Feira de Sábado juntava-se outra no alto, entre ameias, a Feira Quinhentista, com a corte de Dinis e Isabel em desfile pelo centro cívico, como que a convidar-nos a subir ao Castelo, para outros folguedos. Rico sábado em Estremoz. E no próximo é certo que lá estarei!

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10 comentários a “Sábado em Estremoz

  1. Pingback: Voltei ao Teatro - ░ Cabaré do Goucha ░

  2. Maria Sousa

    Boa Tarde Manuel

    Gosto muito de si, da sua delicadeza com que trata tudo o que o rodeia. As pessoas, a natureza e o mais belo prazer da vida.
    Desejo que seja muito feliz pela vida fora e que a sua nova casa no Alentejo lhe proporcione, dias cheios de bons cheiros, como só o Alentejo tem.

    Vivo em Lisboa, mas gosto muito de tudo o que tem o Alentejo, quem sabe se um dia também viverei por aí!!!!.O meu coração diz-me que sim, vamos ver o que acontece.

    Um abraço

    Maria

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  3. Frasco de Memórias

    Gostei de “ver” Estremoz através dos olhos do Manuel Luís Goucha. E ainda mais a minha casa na Praça Luís de Camões (do Pelourinho)!
    Estremoz merece, sem dúvida, muitas visitas, sobretudo ao Sábado de manhã.
    Para viver nem sempre é fácil: “aprende-se a viver em Estremoz” disse-me uma vez uma estremocense mas, como a expressão indica, é uma aprendizagem. Neste momento, sou aprendiz.
    Ganha-se um “viver mais lento e doce”, mas perde-se em privacidade (com tudo o que isso implica).
    Mas, principalmente hoje, fez-me bem ler este post :-)
    Votos de muitos e bons passeios nesta minha cidade de acolhimento!
    Um abraço,
    Ana Cabete

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  4. Helena Loureiro

    Olá, sou sua fã e gosto muito de seguir o seu blogue.
    O seu passeio a Estremoz fez-me recuar no tempo e lembrou-me a primeira vez que visitei Estremoz, na altura numa excursão realizada pela escola, se calhar também era sábado, porque lembra-me duma feira e ainda tenho um tabuleiro de barro que a minha mãe lá comprou, onde passou a fazer a sua carne assada. Hoje por vezes ainda o vou buscar para fazer um assado com sabor especial.
    Continue a partilhar connosco as suas viagens, sentimentos e saber.
    Helena

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    1. RESTAURANTE ÁGUIAS D'OURO

      Caro “Manel”, permita-me tratá-lo assim, até porque, foi desta maneira que me pediu que o tratasse quando há anos nos conhecemos na Pousada D. Afonso II em Alcácer do Sal, de que eu era director e, o amigo Manel, nos privilegiava esporadicamente com a sua visita e, onde nos deu mesmo o prazer, em determinado verão, de passar alguns dias de férias. Encontrámo-nos ainda noutras Pousadas já que, a exemplo das velhas glórias directores que refere, também eu tive muitos anos de direcção das maravilhosas unidades que eram as Pousadas de Portugal.
      Deixei Alcácer do Sal que abri e dirigi durante sete anos, vários deles em acumulação com a Quinta da Ortiga em Santiago do Cacém e Vale de Gaio no Torrão e, rumei a Estremoz para dirigir Santa isabel, S. Miguel em Sousel (que entretanto encerrou) D. João IV em Vila Viçosa e Santa Luzia em Elvas que entretanto também extinguiram. Foi então que resolvi deixar o Grupo Pestana e, a convite de um amigo passamos a explorar o ÁGUIAS D’OURO em sociedade. Este restaurante em tempos glória da gastronomia alentejana, tinha passado por um período difícil , por várias gerências e mesmo um período de encerramento. Começámos “devagarinho” e a exemplo do que fazia o seu conhecido Sr. Panaças privilegiámos a comida tradicional alentejana e, conscientes de que não seremos o melhor do mundo, consideramos que não nos temos saído mal nesse objectivo já que, não abundam os comentários negativos de quem nos visita.
      Sendo o amigo ” Manel” um grande conhecedor destas andanças e um lider de opinião consciente do efeito que podem ter as suas opiniões, não deixamos de achar algo estranho que tenha feito uma referência menos positiva à nossa qualidade baseada no comentário de alguém que, esperemos, no mínimo, tenha alguma vez experimentado os nossos serviços e a gastronomia que servimos. Por enquanto e também a pedido de muitas pessoas que conheceram o ÁGUIAS D’OURO noutros tempos, tentaremos ainda servir a comidinha alentejana como os alentejanos sempre fizeram. É uma opção; vale o que vale.
      Ainda bem que veio a Estremoz e; volte sempre. Esta terra branca, agora com menos mármore mas mais vinhedos e olivais, continua a esconder imensos motivos de interesse para descobrir a cada recanto onde continua a sentir-se o peso de uma história rica e a paz e calma alentejana.
      Foi um prazer “falar consigo”.
      Aníbal Coxixo
      CAFÉ RESTAURANTE ÁGUIAS D’OURO
      24 DE Maio 2016

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      1. MLG

        Caro Aníbal
        Obrigado pelo comentário. Fico contente por o saber na direcção do restaurante Águias de Ouro. Realmente têm sido várias as pessoas que se têm lamentado quanto ao restaurante, quando dele falo tendo como referência o que já foi, durante décadas. Não faltarão ocasiões para voltar a Estremoz e almoçar no Águias de Ouro, mais a mais vivendo, aos fins de semana, próximo.

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  5. Marília

    Que bom ter vindo a Estremoz, tenho pena que não tenha ido ao Convento de São Paulo, a 15 km de Estremoz entre Estremoz e Redondo. Espero que um dia possa passar por lá. :)

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  6. judite ribeiro

    Olá Manuel não tive o prazer de o ver cá em Estremoz, admiro muito o seu trabalho e o ser humano que é, só o conheço da televisão, espero ainda o ver pessoalmente para lhe poder dar um abraço (se assim deixar) gosto imenso do Manuel, a minha filha ainda conseguio dizer-lhe que é sua fã, eu nem se fala, adoro-o, obrigado por ser quem é e venha mais vezes até Estremoz

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  7. Natália

    Eu sabia que ia gostar do mercado semanal de sábado. No sábado vou lá estar matar SAUDADES dos cheiros, das cores das gentes das aldeias que ali se deslocam e da minha MÃE que lá vive com os seus 84 anos, e como a senhora sua MÃE não abdica da sua liberdade e autonomia e ´so gosta de vir para minha casa passar poucos dias temos que respeitar um bj

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