PARABÉNS TONY!

No dia em que é lançado, em DVD, um documentário sobre a vida e os 25 anos do percurso artístico de Tony Carreira, recordo aqui partes tocantes de uma longa conversa que com ele tive, em Armadouro, sua terra natal, no concelho de Pampilhosa da Serra.

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Encontrámo-nos na escola que havia sido a sua, em tempos de rapazelho, hoje desactivada mas com a promessa que, ainda, gloriosos dias terá. O projecto de a transformar em museu Tony Carreira é acarinhado por muitos, a começar pela autarquia, se bem que já tenha causado alguma estranheza e incómodo ao futuro homenageado:
– “Não gostei da ideia quando a ouvi pela primeira vez. Uma casa-museu poderia ser entendida como pedantice minha. Acho bonito que se procure recuperar esta escola e por isso disse disponibilizar grande parte dos lucros da venda do meu livro biográfico para esse fim. E contrapus com uma outra ideia mais abrangente, para que este venha a ser um espaço de homenagem à região e seus valores, onde certamente eu estarei por ser um filho da terra que se tornou conhecido, e que através dele as pessoas se possam interessar por esta terra e suas gentes”.

É a esta terra, perdida na serra, que Tony gosta sempre de voltar, fora do bulício do Verão, quando há uma outra calmaria, reconfortante de sons e cheiros para quem chega da cidade grande.
“É quando cá estão só as pessoas da terra! Encontro aqui uma paz de me põe de bem comigo e com as minhas recordações”.

E tantas são. Logo a começar pelas da escola onde estamos:
“Fui muitas vezes àquele quadro e levei algumas reguadas, por não saber a matéria. Não que fosse cábula, ou coisa do género, antes pelo contrário, era um dos melhores alunos, quase não precisava de estudar, de tal modo absorvia, que nem uma esponja, quanto a professora ensinava”

E como era ela? – quis logo eu saber, que ainda me atazana a lembrança da minha da quarta, magrela, quezilenta, de cabelo arrepiado num puxo, só lhe faltando uma verruga no nariz, para compor o protótipo de uma bruxa.
“Temos de entender a época e o país em que vivíamos. Eram tempos duros. Aqui não havia electricidade. Se queria beber água tinha de ir à fonte. Era uma aldeia perdida nesta Beira. Quando falo disto aos meus filhos, quase pareço ter cento e quarenta anos, tal esta realidade tão recente na vida dos que são da década de sessenta, como eu, lhes parece muito longínqua. Tenho da professora excelentes recordações, mas era muito exigente. Havia tolerância zero para quem não soubesse a matéria! Numa época de tanta pobreza, um prémio por muito simples que fosse tinha uma importância extraordinária. Lembro-me de ter recebido, por ter sido o melhor aluno daquele ano, uma esferográfica de plástico que escrevia a quatro cores e de ter ficado maravilhado com tal prémio”.

Assim ficaste com a tua primeira bola!
“Jogávamos futebol no recreio, ou mesmo na rua, com uma bola de trapos. Um dia recebi uma bola a sério. Veio de França para onde o meu pai havia emigrado, dias depois de eu ter nascido. Guardei-a em casa e nunca joguei com ela, não fosse estourar com um prego ou vidros que pudessem estar pelo chão, ainda por cima a aldeia estava em polvorosa com a colocação de paralelos na rua”.

Quando nada se tem o pouco é muito.
“Mas fui uma criança feliz. Tinha era muitas saudades dos meus pais. Só via o meu pai quando ele vinha à terra em Agosto. Até aos seis anos vivi com a minha mãe, depois ela foi ter com o meu pai, a França, e fiquei a viver com a minha avó Glória!”.

Glória, mulher do teu avô António?
“O homem que mais me marcou até hoje”.

António era um um homem que os da terra receavam por ter “mau vinho”. Ficava a modos que agressivo. Só mesmo o neto amado para lhe “dar a volta”.
“Tenho tantas saudades dos passeios que dávamos. Ele tinha um burro para o ajudar na venda de sardinhas e lá me punha em cima do burro, para o acompanhar. Por vezes caía do burro, mas valia a pena pela aventura. Tenho saudades das histórias que me contava. Das conversas que tínhamos. Até das maroteiras que me fazia. Ele tinha barba e então esfregava a cara dele na minha, imberbe, e eu ficava em brasa. Quanto mais danado eu ficava, mais ele o fazia. E não é que repeti durante anos a mesma graçola com a minha filha?
Morreu, era eu muito jovem. Ainda hoje digo, muitas vezes em família, que daria dez anos da minha vida para voltar a tê-lo, um dia que fosse!”

Foi ele quem te deu o melhor presente de Natal da tua vida!
“Foi o meu avó António que me deu o melhor presente de Natal da minha vida: um pacote de bolachas Maria! Não sabia o que era!”

Como também não sabias o que era um bife de novilho!
“Pois não! Só aos onze anos o soube. Comi o meu primeiro bife numa das férias dos meus pais. Foi no Fundão, possivelmente era um bife da treta, mas para mim o melhor bife de sempre”.

Logo depois Tony é chamado para junto dos pais. Trocaria Armadouro e a casa da avó Glória por uma cidadezinha na periferia de Paris e por um pequeno apartamento.
“Que me parecia enorme. Um verdadeiro apartamento à Manhattan, de filme. Era o sonho de trocar uma aldeia, a que chegou a electricidade apenas seis meses antes de eu ter partido, por uma cidade com muitas luzes e semáforos. Um deslumbramento! Eu tinha onze anos”.

O sonho de cantar o amor é dessa altura. Deve-se a Amália e ao seu ‘Lágrima’, escutados no velho rádio do tio Jorge, que ainda hoje o tem em sua casa.
“Música só no rádio. A única televisão da terra era a da professora. Um dia, todos nós alunos fomos a casa dela para ver as cerimónias de Fátima.”

Foram obrigados! – lembro-me de o ter provocado, mas em vão que a resposta encheu seu rosto de luz.
“Obrigados sim, mas foi fantástico! Aquilo parecia magia! Um caixote com pessoas dentro!”.

Mas voltemos a Amália.
“Quando a ouvi a cantar o ‘Lágrima’ adorei. O tema marcou-me, teria uns dez, onze anos, e nessa altura não gostava de fado. Tenho aprendido a gostar. O que me emocionou foi a voz e a interpretação. Era a voz a transmitir-me emoções. Ainda hoje, quando ouço esse tema, me comovo. Logo a seguir à minha chegada a França, ouço uma outra voz que me arrebata, desta vez de um cantor israelita que cantava em francês. Foi então que decidi ser cantor e disse-o ao meu pai”.

Que achou que só podia ser tonteria. Então anda um tipo a dar no duro, na estranja, e vem um filho de onze anos dizer que quer ser artista! Isso é lá mister! Mal sabia que Tony haveria de ser um dos cantores mais celebrados do país e onde, no mundo, haja uma comunidade de portugueses.
“O meu percurso não foi de sofrimento. Foi de luta e de sonho. O sonho que começou em menino. O sonho era tão grande! Quando as coisas não funcionavam eu pensava sempre que no dia seguinte funcionariam. Era a minha forma de estar nisto. Quando em 2000 aparece o meu primeiro grande sucesso, pensei que Deus finalmente me estava a dar a oportunidade de mostrar o meu sonho!”.

Continuas um sonhador?
“No dia em que não me apetecer arriscar, já nada faz sentido! Um dos meus sonhos é vir a cantar com uma orquestra sinfónica”.

Que lição te deu a vida?
“Que devo seguir o meu instinto! Ele nunca me traiu!”.

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Há quinze/vinte anos fui dos que desvalorizou Tony Carreira, tão cheio de mim me achava. Há muito que me rendi à força do seu sonho. Ao respeito e generosidade com que trata quantos o amam, os mesmos que enchem qualquer plateia e o acompanham em delírio.
À verdade das suas memórias e do seu presente. Por isso, já lhe pedi desculpa, publicamente, e senti-me em paz! Parabéns Tony.

19 comentários a “PARABÉNS TONY!

  1. Vera Lúcia Almeida

    Sr Manuel Luis Goucha, adoro o seu trabalho e realmente o Sr e o querido Tony Carreira são das pessoas mais humanas que Portugal tem. Felicidades para os dois :)

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  2. Maria Joao Medeiros

    Obrigado por partilhar sou uma Fã do Tony e sinto o mesmo que já foi notado aqui no seu blogue a sua humildade e profissionalismo e a razão que que tem todo o nosso respeito.
    Também quero notar a admiração que tenho por si e a Cristina são a razão que tenho a TVI Internacional desde que ca chegou a Toronto há dois meses antes acompanhava o programa na net, são uma grande dupla e da pra ver a ternura e carinho que existe entre os dois.

    Já que não gosta de bjinhos deixo um abraço

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  3. Margarida Sousa

    Adoro os dois mas o Toni e muito especial para mim sou apaixonada pelas suas cansoes , e o manel adoro velo todos os dias com a Cristina Sao o maximo bjs para todos

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    1. Julieta Costa

      Olá Manuel Luis Goucha ,ainda bem que reconheceu a tempo o valor que ainda muitos Portugueses não deram a esta “figura” que nos marca sentimentalmente e vai ficar para sempre nas nossas memórias …grande símbolo para os(as) Portugueses(as) .

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  4. Carla Peixoto

    Boa noite querido Manel!
    Desde já expresso por aqui o meu muito obrigado por esta partilha que por momentos enquanto lia me emocionou. Não podendo também deixar de expressar a minha admiração por si enquanto profissional; mas sobretudo e sem sombra de dúvida, pela grande pessoa que se tornou(diga-se que está como o vinho do Porto a cada ano melhor 😉 em todos os aspectos).
    Só uma grande alma e um grande ser, admite, tal como o fez nesta publicação, não ser desde sempre “admirador” do “nosso Tony”.
    Obrigado por ser como é e por existir e fazer-me, digo-o com todo o gosto a mim muito feliz.
    Sou sem dúvida uma admiradora e de certa forma seguidora sua e da nossa não menos amada e acarinhada Cristina Ferreira. Bem haja.
    Uma Boa Noite!
    Carla Diana Martins Peixoto(Foz Do Sousa, Gondomar)

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  5. Manuela

    Parabens ao Tony Carreira e a todos que estiveram envolvidos neste CD E DVD ,aos músicos,técnicos , O grande Senhor Ricardo Landum ,são grandes parcelas para o seus grandes sucessos e para este resultado maravilhoso Apesar da maioria das musicas serem já nos familiar,nunca nos cansamos de ouvir e merece ser sempre ouvidas e preparem-se para ficarem coladas ao ecram com o DVD é incrível a partilha das emoções a energia que nos transmite,choramos e rimos.è sem duvida o Cantor mais idolatrado do nosso País,Um Cantor que vai ficar claramente na historia da musica de Portugal

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  6. Lurdes cristovão

    Duas grandes pessoas,cada qual com a sua profissão,que eu admiro muito , adoro ouvir cantar o Tony,e adorei a entrevista feita ,por um grande apresentador,Manuel Luís!!!!beijinhos aos dois….e muitas felicidades..

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    1. hugo simoes

      adoro as musicas do Tony fazem-me feliz e devertido quando estou triste e adoro imenso ouvilo como também gosto dos programas em que o senhor goucha esteve . senhor goucha e um profissional na tv.
      os meus parabéns abraco
      hugo simoes

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  7. david costa

    Sou daqueles que não tenho grande interesse pela música que o senhor Tony faz, mas isso não impede que goste da formo como ele é. Acho-o um homem bondoso apesar de o achar um pouco ” pãozinho sem sal”. Mas não deixa de ser um grande senhor, mas isto é apenas a minha opinião e vale o que vale. Grande abraço senhor da televisão, como gosto de lhe chamar.

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  8. Teresa

    Simplesmente espectacular , retrata tudo o que penso desse Grande Senhor.Confesso que não sou fã das músicas de Tony, mas quando o vejo, digo sempre aos meus filhos, aqui está alguém , com muito dinheiro e fama, mas continua a ser humilde e uso o termo e peço desculpa ( nada cagão). Felicidades para ambos.

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  9. Madalena Vides

    Olá Sr.Manuel Luís Goucha…é muito bom recordar…
    Obrigado pela partilha
    O Sr.Tony Carreira é um Grande Homem,com uma bela história de Vida…um exemplo a seguir…Sigo a Carreira do Sr.Tony desde 1995,e cada vez o admiro mais e mais…um beijinho

    Madalena Vides

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