No rastro de Luis II da Baviera

rei Luis II

Foi das viagens mais fantásticas que fiz até hoje e já lá vão uns bons anos, talvez uns quinze.
Algumas fotos não serão grande coisa, que estavam em papel e tiveram de ser digitalizadas e nesse processo caseiro perdeu-se qualidade, mas ainda assim oxalá elas sirvam para ilustrar o entusiasmo com que proso acerca desta viagem e para lhe espicaçar a vontade em querer conhecer tais bávaras paisagens.

Parti de Munique à descoberta dos castelos de Luis II da Baviera, rei absoluto quando já o absolutismo “havia sido chão que deu uvas” no mais da Europa. Aos dezoito anos, Luis subiu ao trono e era então um jovem formoso e brilhante que cativava os corações dos seus súbditos, infundindo-lhes a esperança de um reinado glorioso. Sobre ele, a escritora austríaca Klara Tschudi (1856-1945) haveria de escrever: “Era o jovem mais belo que alguma vez vi. A sua figura alta e delgada parecia perfeitamente simétrica. Os cabelos abundantes, suavemente grisalhos, e a sombra do seu bigode emprestavam à sua cabeça uma certa semelhança com as grandes obras de arte antigas, graças às quais formámos as primeiras ideias sobre o que terá sido a beleza masculina helénica”. Vinte e dois anos depois, o rei Adónis havia-se convertido num obeso e fatigado misantropo, escondendo-se de tudo e de todos em palácios e castelos por ele mandados construir, qual deles o mais fantástico. Percebemo-lo em Linderhof, na deslumbrante sala de jantar com mesa posta apenas para uma pessoa, ele próprio. Um sistema elevatório fazia com que a mesa subisse directamente da cozinha para a sala, já com a refeição posta. O rei não queria que alguém o visse, enquanto comia. Com o passar do tempo as coisas agudizaram-se, a tal ponto que ser-lhe-ia diagnosticada uma grave perturbação mental. Contam os seus criados que nos últimos anos, apesar de continuar só, mandava que preparassem as refeições como se fossem mais três ou quatro à mesa. Imaginando-se na companhia de Luis XIV e de Luis XV e suas predilectas, madame de Pompadour e madame de Maintenon, com quem mantinha supostas “conversas”, sentir-se-ia menos solitário.

Luis II manteve-se à parte do mundo que o rodeava, criando todo um ambiente de solitário esplendor. Mais do que a política, eram a arquitectura e a música as suas grandes paixões, daí que tenha fomentado a construção dos mais admiráveis e extravagantes palácios e castelos, ao mesmo tempo que cativado pelo talento de Wagner criou um forte vínculo com este, a ponto de se assumir como o seu mecenas. Acabaria mal, afogado no lago Starnberg, onde seria encontrado, já cadáver, flutuando entre os juncos. Tinha sido deposto através de um golpe de estado, promovido por familiares e governo, alarmados pela delapidação do erário público e pela instabilidade política da Baviera, numa altura em que a Prússia expandia o seu poder. Os luxuosos castelos, a sua enclausurada existência, os passeios nocturnos em trenós de ouro luzente e a sua misteriosa morte, são ingredientes de uma história que continua a apaixonar quantos visitam a Baviera e fazem de Luis II um mito moderno.

Palacio de Herrenchiemsee

galeria dos espelhos

Herrenchiemsee, Linderholf e Neuschwanstein criam um universo que, para o resto da Europa do século XIX, existia apenas nas gloriosas páginas dos livros de História. Neste palácio de Herrenchiemsee, Luis II quis que ele fosse o símbolo do seu absolutismo e mesmo suplantar o luxo e magnificência da corte de Luis IV de França, o Rei-Sol. A sua galeria dos espelhos, nos seus noventa e dois metros de comprimento, consegue ser maior que a já impressionante galeria do palácio de Versalhes. Na altura cheguei a duvidar, mas acabei por tirar a limpo um mês depois, quando tive oportunidade de voltar a Versalhes.
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Concebido como uma espécie de “Petit Trianon” construído segundo o espirito de Versalhes (sempre a obsessão pela corte de Luis XIV…) nada tem, contudo, a ver com a arquitectura da época do rei francês, mas é sim um belo exemplo da arquitectura rocócó da Baviera. É deslumbrante, digo-lhe eu e muito também pela mágica envolvência.

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Neuschwanstein é talvez o mais conhecido dos castelos ou palácios do rei Luis. Este foi idealizado como um paraíso na terra onde os sonhos românticos inspirados pelas obras de Wagner e as antigas histórias épicas germânicas pudessem ressurgir. Diz-se que foi inspirado por neste castelo que Walt Disney criou o que é desde sempre a marca dos parques Disneyland.

7 comentários a “No rastro de Luis II da Baviera

  1. Letícia

    Visitei Neuschwanstein recentemente, e as impressões foram as mesmas descritas pelo senhor. Gosto muito quando encontro pessoas com quem comentar sobre esses personagens históricos tão singulares quanto o Rei Ludwig, assim como sua prima Sisi, a imperatriz Elisabeth da Áustria (pessoa por cuja história e alma tormentosa sou fascinada). Seja através do turismo ou da leitura biográfica, nós, amantes da História, conseguimos sentir um pouco da essência desses personagens que de fato mudaram o mundo. Um abraço!

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  2. celia

    por ter lido há anos uma entrevista sua há uns anos a esta parte numa publicação de uma revista fui a descoberta destes lugar e por 3 vezes repeti a visita tal foi o encantamento mas a primeira vez que o visitei Newschenstein em Fussen foi das sensações mais avassaladores que tive em viagem caminhava eu de carro pela romantic strad quando numa manha de nevoeiro surge suspenso no cimo do penhasco o castelo suspenso entre a bruma durante segundos fiquei de boca aberta sem conseguir articular palavra e chamar a atenção do meu companheiro de viagem que conduzia relaxadamente o automóvel … foi e será inesquecível esse dia

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  3. maria assucao cardoso barbosa

    Gostei imenso foram as minhas melhores férias visitei tudo isso com os meus amigos que moram lá na A Alemanha muito obrigado!! Beijinhos!!

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  4. Olímpia Paixão

    Obrigada Manuel Luís. Acabou de me dar uma boa sugestão de férias. Vivo no Luxemburgo e vi no mapa que fica até muito próximo para ir de carro.
    Continue a partilhar connosco alguns dos seus muitos conhecimentos pois um pouco de cultura nunca fez mal a ninguém. Beijinhos.

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  5. Berta Veiga

    Nada melhor que me relembrar o absolutismo(matéria que no ano letivo transato ,estudei com a Ana )e agora ver em fotos magnificas toda a riqueza e esplendor da época.Depois,adorei ver a foto em que tinha menos 15 anos,ehehehhe. Nota-se a diferença ,embora eu ache que quanto mais tempo passa, mais bonito e charmosos está o meu querido amigo.Já agora,uma cusquice….esta noite sonhei consigo!calma,calma….foi um sonho engraçado…sonhei que tinha rapado o cabelo e tinha uns óculos à Abrunhosa para não o reconhecerem e pediu-me para eu comprar um livro seu e levar para a sessão de autógrafos para o assinarem mas era para o Manel o guardar de recordação!!acho que é a ânsia que chegue sábado, que me fez ter este sonho 🙂

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