Morreu Jeanne Moreau

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Foi das actrizes que recebi no programa “Momentos de Glória”, vai para 25 anos, a que mais me impressionou pela sua cultura, pela sua densidade, pelo que conhecia do nosso país e do nosso cinema.

Já conhecia Lisboa de outras vindas. Na altura recordou a que havia efectuado com Pierre Cardin, quando andavam de caso, ainda recente, e por isso pouco terão visto além do hotel. O frio e o nevoeiro que então se faziam sentir na cidade terão dado uma ajudinha ao aconchego.

Curioso foi como tudo começou: “Um dia, fui ver a colecção Cardin. Na altura, procurava roupa para a personagem de Eva no filme de Losey. Lembro-me que era o único dos costureiros que estava aberto naquele dia. Logo me apaixonei por ele e pela sua roupa. Alguém me disse, então, que ele não gostava de mulheres. Lembro-me de ter respondido na hora: estou-me nas tintas, é um homem, amo-o e quero-o!”

Dito e feito, teve-o. Aliás, a actriz nunca se escusou à luta. Cedo aprendeu a bater o pé, por exemplo para defender a sua vontade em querer ser actriz. A ousadia mereceu-lhe algumas galhetas paternas: “O meu pai opunha-se violentamente a toda e qualquer carreira de artista. Vinha de uma família de camponeses e fazer teatro, para ele, tinha uma conotação com uma vida frívola… uma vida fácil. Uma actriz era uma puta! Fui obrigada a ir contra os seus desejos. O que me deu uma grande energia e uma grande revolta!”.

Uma e outra foram-lhe necessárias para temperar a vida e a sua arte de representar.

O seu fascínio, segundo a actriz, está em tentar que o espectador descubra outras verdades: “através de cada personagem, de cada filme, de cada peça de teatro, eu entro num universo novo. E sou eu, a pioneira, que diz ao espectador; venha comigo à descoberta de algo estranho e diferente de si!”. Disse-me que os muitos anos de carreira a fizeram mais generosa, que representar não era mais um prazer pessoal e narcísico mas sim “um acto de amor universal. Com o tempo e com o sucesso vem o reconhecimento… a gratidão. Ao longo do tempo não só tenho encontrado personagens, como belíssimos seres humanos, seja entre os técnicos ou os criadores artísticos, seja entre as pessoas que me são chegadas. Com eles fui-me dando aos outros, ao mundo!”

Pressenti-lhe uma imensa curiosidade pela Vida. Certamente a vida, para ela, não terá limites. É uma grande aventura e maior aventura será a morte: “acredito na imortalidade. Será uma aventura sem corpo!”.

As suas palavras avassalam… estuando sensualidade .”A sensualidade acompanha a tal energia de que já falámos. Não confundamos sensualidade com sexualidade. Essa já é desprovida de sentimento e podemos compará-la às necessidades naturais. A sensualidade engloba coração e espírito, aceito-a como um prazer completo!”.

Havia solidez no que dizia… mesmo nos gestos… até nos silêncios. Eram sessenta e sete anos magníficos, de alegrias e dores… de inquietações e plenitudes! O teatro e o cinema haviam sido o seu alimento. E Jeanne Moreau degustava-os como quem saboreia uma mancheia de cerejas tintas.

Jeanne Moreau

Tida como “monstro” sagrado do cinema francês do século XX, Jeanne Moreau recusou-se porém a falar dele numa dimensão caseira. Dizia-me então que havia sim que defender o cinema europeu. Em seu entender o esforço passava por um grande sentido de solidariedade entre todos os sues fazedores, técnicos e artistas. Que se começasse por criar uma sociedade europeia de distribuição a funcionar na América, que fizesse com que todas as fitas saídas deste velho continente fossem dobradas em inglês, para assim poderem ser vistas e apreciadas: “esse sim, deveria ser o nosso cavalo de batalha. Depois, não queiramos competir com o cinema americano em espectáculo. Não é essa a nossa especialidade. Repare nas obras escritas na Europa que são compradas pelos americanos. Homens como Spielberg, George Lucas… têm um conhecimento profundo do cinema europeu e inspiram-se no cinema da nova vaga. Sejamos no cinema antes um elemento complementar”.

Ao falar do cinema português voltaria a deixar-nos banzados: “o cinema português tem algo de muito próprio. É aparentemente modesto, discreto, eu diria antes que é um cinema resistente. É um cinema que permite, através de realizadores como Manoel de Oliveira, Paulo Rocha, Jorge Botelho, Jorge Silva Melo, Teresa Vilaverde,… uma visão sobre um mundo interior que diz respeito a todos nós. Depois, é vossa palavra saudade, tão cara aos poetas!”.

Que poderia ser esta mulher se não actriz? “Cozinheira!” – respondeu-me, sem hesitar. “Sou muito dotada para a cozinha. Digo-o com uma enorme arrogância, que jamais utilizaria na minha carreira de actriz. A cozinha é sensualidade, generosidade, comunicação e capacidade inventiva. É tudo isso!”.

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No final de cada conversa brindava-se com Porto. Jeanne Moreau bebeu-lhe o aroma não sem antes nos explicar com invejável elegância: “não bebo álcool há já alguns anos, portanto vou respirá-lo e o senhor bebê-lo-á no meu lugar!”. E dali partiu para outras viagens… para a da Vida, afinal o seu melhor filme, que hoje chegou ao fim!

3 comentários a “Morreu Jeanne Moreau

  1. Maria da Conceição Saraiva

    AdorO o Manuel Luís, até porque somos do mesmo ano , ae do mesmo mês.
    Ainda me lembro quando ele fazia um programa de cozinha, que fez uma gelatina de laranja natural.
    Manuel beijinhos para si no seu coração.
    Também para a Cristina Ferreira que também admiro muito, pela sua determinação. Grande mulher. ..

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  2. Carla

    Manuel
    Nem parece o mesmo, como mudou e para melhor :)

    Mulher com atitude ” estou-me nas tintas, é um homem, amo-o e quero-o!”

    Abrazo
    Carla

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