Maria de Jesus Barroso

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Joaquim Vieira, jornalista que muito estimo, disse ter ela sido a Rainha da República e eu entendi o que com isso quis dizer. Sempre me tocou a sua elegância e distinção,  mas acima de tudo a sua luta pelos ideais em que acreditava. Uma luta sem prazo de validade, veja-se o que fica do seu trabalho na Fundação Pro Dignitate  que em boa hora criou, dado que o seu exemplo fica para gerações que hão-de continuar e lutar por valores absolutos, porém frágeis, como o da liberdade e da dignidade. Foi, justamente, na Fundação Pro Dignitate, criada por Maria de Jesus Barroso e um grupo de personalidades com o objectivo de prevenir a violência e promover os Direitos Humanos, que com ela conversei longamente.  Desse encontro recordo aqui o essencial.


– Ao vê-la aqui no seu  gabinete de trabalho, pus-me a pensar que, realmente, não há uma idade limite para lutarmos pelos nossos ideais.

Enquanto estivermos cá neste mundo e tivermos a cabeça a funcionar e o corpo a aguentar-se bem, pudemos e devemos fazer alguma coisa no sentido de ajudarmos e melhorarmos a sociedade em que nos inscrevemos.

– Mas esta é uma luta que trava desde os anos quarenta, a luta pelos direitos humanos?

Sim. Eu trouxe essa preocupação da primeira escola que frequentei que foi a casa dos meus pais. Nós éramos sete filhos, pai, mãe e avó, na nossa casa. E criámos um sentido de solidariedade muito grande com os meus pais. O meu pai foi preso várias vezes, por razões de ordem política e por isso fazíamos, como que um circulo de solidariedade em volta da nossa mãe que era professora primária. Foi com eles que aprendemos os grandes valores humanos que vale a pena cumprir, como esse da solidariedade. O que fiz depois disso, na universidade e fora da universidade não foi mais do que seguir, numa linha de continuidade, uma preocupação que havia norteado a  minha vida, desde sempre.

– Mas se até 1974 era a luta pela liberdade, porque lutamos agora em plena Democracia?

Não há comparação com o que era este país antes do vinte e cinco de Abril. O avanço que este país conheceu é extraordinário. A conquista da liberdade, da Democracia, dos direitos humanos foi feita com o vinte e cinco de Abril, não há dúvida alguma, os capitães de Abril abriram-nos a porta para este novo regime em que vivemos. Há coisas a aperfeiçoar, concerteza, mas podemos fazê-lo. Uma vez que vivemos em Democracia, podemos criticar e é possível melhorar as coisas. Temos de agir, não são só os governos que fazem as coisas, a sociedade civil tem de participar através das mais diversas instituições que se criam, para melhorar a sociedade. Ainda há dias estive numa reunião com varios nomes ligadas às mais diversas instituições debatendo e procurando agir contra problemas muito concretos e graves da nossa sociedade como, por exemplo, o da pobreza. A pobreza que existe, e não só no nosso país, tem que ver com o  modelo de desenvolvimento que foi adoptado no mundo. Tem de haver um modelo de desenvolvimento que tenha uma maior preocupação com os problemas sociais.

Está preocupada com a actual situação do nosso país?

Estou preocupada com o que se passa no mundo. É um mundo eivado de violência e depois acho que a comunicação social devia difundir os grandes valores humanos e abafar mais as coisas negativas. Não estou a dizer que as esconda, todos nós queremos estar bem informados, é um direito que nos assiste, mas não devemos banalizar a violência, pois podem nefastas as consequências.

Essa já foi uma luta sua, quando mulher do então Presidente da República, Dr. Mário Soares, a luta contra a violência estimulada através dos órgãos de comunicação social e em particular a televisão.

Exactamente. Acredito no que disse o Padre António Vieira, no século XVII, que aquilo que entra pelos olhos tem muito mais força que tudo o que entra pelos ouvidos. E foi a partir dessa preocupação que eu criei esta Fundação, procurando juntar personalidades dos mais diversos quadrantes, mas que sentia serem pessoas muito atentas a estes problemas. Ainda hoje a televisão estimula a violência, quando mostra como se rouba, quando insiste no crime mais violento, quando mostra à exaustão o homem que matou duas, três pessoas ou mais …não queremos que se esconda essa realidade, já bastou a censura que tivemos durante mais de quarenta anos, mas que se, também, se mostre o que de positivo e estimulante acontece no nosso país, na nossa sociedade. Há coisas maravilhosas que acontecem no nosso país. Não há muito estive na entrega dos prémios da Gulbenkian e vi lá pessoas extraordinárias a serem galardoadas, nomeadamente um jovem que está a desenvolver um trabalho espantoso na área da ciência. Este jovem é professor universitário cá, em Itália e nos Estados Unidos.  O país conhece este jovem? Não, claro que não. Mas conhece qualquer jogador de futebol. Os jovens têm de conhecer estes casos, até para que sintam orgulho em serem portugueses.

Até para perceberem que há outros caminhos, que não apenas o futebol, onde se pode alcançar sucesso e realização profissional?

Exactamente. Se os jovens perceberem que há outros jovens portugueses, com prestigio cá dentro e lá fora, noutras áreas, sentir-se-ão orgulhosos e estimulados a seguir o exemplo e a procurar melhorar estes sectores da sociedade portuguesa para que também eles venham a ser competitivos. Portugal não é um país de roubos e crimes.

Não acha que os portugueses estão mais do que nunca desencantados? Como pedir-lhes que intervenham na sociedade?

Disse-lhe já que a primeira escola que tive foi a casa dos meus pais. É na casa dos pais que se estabelece a base de valores que devem balizar a nossa vida. Essa base, depois, será cimentada e melhorada na escola dos professores e com o contacto que, ao longo da vida, vamos tendo com cidadãos responsáveis e respeitáveis. Bem sei que a família, hoje, não tem a mesma consistência que tinha antes, mas de qualquer maneira os pais têm uma grande responsabilidade.

Mas há muitos pais que se demitem dessa função?

Alguns demitir-se-ão, por vontade própria, o que é lamentável, outros são, quase forçados a isso, pela vida que têm de levar. Muitos outros, acredito que a maioria, saberão ser pais. Um dia, quando eu ainda dirigia o Colégio Moderno, tinha uma aluna que chamei ao meu gabinete e vi, na respectiva ficha, que a sua mãe era médica. O rendimento escolar desta aluna não era, particularmente, brilhante e, por isso aconselhei-a a aplicar-se mais nos estudos e indaguei sobre o que pretendia fazer da sua vida futura. “Não quererás ser médica?”, perguntei. “Isso nunca!”, respondeu-me com um grito de alma. “Mas é uma profissão maravilhosa, que a tua mãe exerce”, continuei.”Por isso mesmo, a minha mãe não tem tempo para mim”, disse.  Claro que expliquei a esta jovem que era o afã desta mãe que, por vezes nem fins-de-semana tinham, que permitia que ela tivesse um nível um nível de estudo, de conhecimentos que lhe dariam estrutura para, depois em adulta, poder triunfar no que quisesse. Mas, por outro lado, fiz chegar à mãe este desabafo, este lamento da sua filha, para que ela tomasse consciência da importância que uma relação entre pais e filhos pode assumir no desenvolvimento dos jovens.

Foi esse tempo entre os seus pais e os filhos que não faltou, em sua casa?

Eu já sou muito velha e, portanto, na minha infância não havia televisão e lembro-me que era à mesa do jantar que todos falávamos das nossas coisas, do que tinha acontecido naquele dia, do que havíamos aprendido ou feito na escola. Todos nos interessávamos por todos. O convívio à mesa do jantar, em muitos lares, perdeu-se.

Hoje há muito quem jante com um tabuleiro sobre os joelhos, frente a um televisor.

E é uma pena. Perde-se uma oportunidade, muitas vezes, única em todo o dia para o convívio saudável entre pais e filhos. Quantas vezes não são nessas conversas que os pais percebem que os filhos estão a passar por algum problema.

Desse tempo na casa dos seus pais, marcaram-na as pessoas que frequentavam a casa?

Com certeza. Eram pessoas com as mesmas preocupações dos meus pais. Os mesmo ideais que os levavam a lutar. Jaime Cortesão, por exemplo. Era uma grande figura que se tivesse chegado ao vinte e cinco de Abril, daria um Presidente da República extraordinário. Era um homem notável, de formação médica, de uma cultura riquíssima, que escreveu também poesia, sendo, ao mesmo tempo, de uma simplicidade e sentido de humor, notáveis.

Vem de infância o seu gosto pela poesia?

Sim e a poesia continua a ser essencial na minha vida. Sempre gostei de ler poesia, de dizer poesia e de transmitir a poesia. A poesia enriquece-nos e já reparou que os poetas com a sua sensibilidade exprimem os nossos sentimentos de um modo privilegiado? Eu recorro, muitas vezes, aos poetas para exprimir o que sinto. As minhas palavras são pobres e as dos poetas riquíssimas.

Lembra-se do Álvaro de Campos (1) quando a certa altura diz:”…hoje já não faço anos/duro, somam-se dias, serei velho quando for mais nada/ Raiva de não trazido o passado roubado na algibeira/O tempo em que festejava o dia dos meus anos”. É, de facto, a mágoa de ter envelhecido e de não ser mais jovem .

Também tem essa mágoa, a de ter envelhecido?

Não. Porque é bom, é confortante chegar a esta idade e saber que tenho sido uma cidadã consciente e solidária. Não me acho uma cidadã especial mas sempre fui uma amante da liberdade e da paz.

A poesia é uma arma?

Pode ser e das mais eficazes. Assim era quando dizia a poesia do novo cancioneiro que era uma poesia que exprimia o nosso descontentamento com o regime ditatorial que tínhamos na altura. Era poemas intensos: “Abafai os meus gritos com mordaças/Maior será a minha ânsia de gritá-los/Amarrai os meus pulsos com grilhões/Maior será a minha ânsia de quebrá-los/ …”.A PIDE ficava muito zangada com isto!

Foi usando a palavra dos poetas que procurou contribuir para um mundo melhor?

Herdei essa vontade dos meus pais e dos meus irmãos. Tive um irmão professor da Faculdade de Ciências, que era um grande matemático e que foi demitido das suas funções por razões de ordem política. Teve de viver numa semi-clandestinidade e foi em casa dele que eu vim a conhecer o Soeiro Pereira Gomes (2), o homem ligado ao neo-realismo que dedicou o primeiro livro aos filhos dos homens que nunca foram meninos. Sentíamos, lá em casa, o dever de agir, procurando contribuir para um mundo melhor.

Já me disse que o seu pai foi preso várias vezes, a última das quais em 1961, já com setenta e quatro anos de idade. Ele teve uma carreira militar e participou em várias tentativas reviralhistas, em 1927 e 1933. Qual era a posição da senhora sua mãe?

De total solidariedade e ao mesmo tempo sentia a necessidade de se ocupar dos filhos para que nós não sentíssemos tanto a falta do nosso pai. Ele chegou a estar mais de um ano deportado nos Açores. Apoiava inteiramente o nosso espírito de rebeldia.

Já não apoiou tanto assim a sua vontade em ser actriz?

Quando o meu pai me disse que ia deixar que eu frequentasse o Conservatório, a minha mãe chorou. O meu pai dizia-lhe:”não são as profissões que fazem as pessoas, são as pessoas que fazem as profissões. Eu tenho confiança na nossa filha e só lhe ponho como condição a continuação dos estudos”.

E continuou?

Nunca quis faltar à minha promessa e quando fui demitida do Teatro Nacional, noticia que me foi transmitida com grande pena por essa grande actriz e grande senhora que foi Amélia Rey-Colaço, prossegui com o meu curso de Letras.

Estava no Teatro também pela palavra, agora, dos dramaturgos?

Essencialmente o que me apaixonava, e apaixona, no teatro é o facto de podermos criar  personalidades diferentes da nossa. É todo um trabalho de pesquisa, de estudo para podermos encarnar, depois, essas personagens.

Curiosamente, a sua última personagem interpretada no teatro foi a Adela, de “A Casa de Bernarda Alba”, de Frederico Garcia Lorca (3), a filha que se rebela contra  Bernarda, aua mãe e que na peça representa a ditadura de Franco.

Exactamente. Mas sabe que eles, os da Censura, deixaram passar essa peça aqui em Lisboa…eles muitas vezes eram ignorantes… e quem fazia de Bernarda era a grande actriz Palmira Bastos. Ela era a encarnação da prepotência da ditadura, e eles não perceberam isso. Quando fomos representar a peça a Coimbra, depois já de termos estado em Santarém e Setúbal, deparamo-nos na plateia com toda a intelectualidade coimbrã. Estava o director do TEUC (Teatro dos Estudantes Universitários de Coimbra), estavam poetas como o Carlos Oliveira, o Joaquim Namorado, o Arquimedes Sousa Santos, o Tossan…enfim, toda a intelectualidade de oposição. Eles sabiam bem qual era a minha posição face ao regime em que vivíamos, tanto assim que quando termina o segundo acto da peça, que é quando a Adela desata aos gritos, fui chamada à frente, eu estava encolhida atrás do elenco e foi Palmira Bastos quem me trouxe para a frente, e foi então que me atiraram para o palco uma pasta com as fitas da Faculdade de Letras e uma capa sob uma ovação estrondosa. Foi então que os censores perceberam o conteúdo da peça e o seu poder de mobilização. A seguir fomos ao Porto,  e já não nos deixaram representar “A Casa de Bernarda Alba”. Fui, então, demitida a seguir, estávamos em 1948.

Foi um grande desgosto?

Foi um desgosto mas aguentei e continuei a dizer poemas, muitas vezes com o grupo do Fernando Lopes Graça (4) em sociedades operárias do Barreiro, do Seixal…

Como viveu todos aqueles anos até 1974?

Houve um ano particularmente difícil, foi o de 1970, costumo dizer que foi um ano para esquecer. Nesse ano, morreu o meu pai, três meses depois a minha mãe, três meses depois  o meu sogro,  com quem também me dava muito bem, e o meu marido foi para o exílio.

Como conseguiu vencer um tempo tão terrível?.

Com a solidariedade, primeiro, dos meus filhos. Eles ajudaram-me a vencer todas as dificuldades. O João também sofreu dois anos sem  licença de frequentar a faculdade de Direito.

Mas em 1970 estávamos na dita primavera marcelista. Acreditou, nessa altura, numa abertura do regime?

No inicio todos nós acreditámos que era possível alguma mudança na situação. Foi Marcelo Caetano quem fez regressar o meu marido, que estava na altura deportado em S.Tomé, penso que muito por influência do então bastonário da Ordem dos Advogados, um homem muito interessante e democrata e ainda no seu governo houve uma ou outra alteração significativa, como a das mulheres não necessitarem mais da autorização dos maridos para saírem do país. Era necessária uma autorização autenticada pelo notário…como se nós, mulheres, fossemos uma coisas!. Tivemos realmente esperança de que ele levasse avante o processo de democratização da nossa sociedade, mas não…

Os jovens farão ideia deste Portugal de que estamos a falar?

Não. Se for perguntar a muitos dos jovens quem foi Jaime Cortesão, António Sérgio , Maria Isabel Aboim Inglês…eles não sabem.

Maria Isabel Aboim Inglês também era visita de sua casa.

Foi minha comadre. Ela e Francisco Salgado Zenha foram padrinhos da minha filha e por isso eu a chamei de Isabel. Era uma mulher extraordinária, uma grande senhora da oposição. Foi demitida da Faculdade, acabaram como o colégio seu e  esteve presa várias vezes. Chegaram a prendê-la e a metê-la nas Mónicas, que era uma cadeira de presa de delito comum, só para a humilhar, mas ela manteve-se sempre com grande dignidade. Uma vez disse-me: “minha comadrinha, era assim que me tratava, na policia sorri-se muito, fala-se pouco e mente-se sempre”.

Mas acha que os jovens deviam conhecer estas figuras?

Acho que é indispensável conhecerem essa História. Não é para terem raivas é para que não queiram nunca mais aquilo. Costumo dizer que todos devíamos visitar um campo de concentração. Estive em Auschwitz e fiquei sem fala durante horas após tudo o que vi. Ao vermos aquelas enormes vitrinas com os sapatos que eram dos prisioneiros que acabaram nos crematórios, sapatos de adultos mas outros tanto de criança, com os cabelos que os guardas cortavam-lhes  rente, com as próteses dos deficientes…porque os deficientes não tinham o direito de existir, tal como os judeus…só os arianos, dizemos para dentro, porque não ficamos sem forças parfa verbalizar o que sentimos, que não queremos aquele desrespeito pelos desrespeito pelos direitos humanos. Digo sempre aos jovens que visito nas escolas, se puderem visitem um campo de concentração. Não é para terem raiva, é para ganharem capacidade de amor ao próximo e  de respeitar a diferença.

Mas, infelizmente, continuam a ocorrer genocídios em vários pontos do Mundo.

Mas temos que ajudar a modificar as coisas. Há uns anos, na Grécia, conheci uma mulher ruandesa, encantadora, muito mais nova que eu, que se chama Yolanda Mukagasana e que me disse: “sou tutsi e os hutus mataram o meu marido e os meus três filhos”. Eu senti um arrepio. Ela vivia em Bruxelas, teve de sair do Ruanda por não aguentar tão trágicas lembranças e deu-me o seu livro que acabei por mandar traduzir e fazer publicar em Portugal. “Não tenhas medo de saber” (5), assim se chama. Quando o li, volta e meia tinha de parar dada a violência de quanto é descrito. Não tenham medo de saber o que o homem é capaz de fazer.

Mas já que falamos do Ruanda e do genocídio recente de 1994, como lida com a hipocrisia dos governos mundiais que começam por ignorar toda o drama, toda a barbárie?.

O livro fala disso. Da falta de coragem e de solidariedade de vários países. E o que me choca mais é saber que há países que nestas situações prestam apoio às vítimas, mas primeiro fornecerem as armas que permitiram toda a violência. São cúmplices. Este negócio das armas, segundo a ONU, é um dos três maiores negócios do Mundo.

Também temos “culpas nesse cartório”.

Mas temos que acabar com isso. Um dia Broutous-Ghali, quando era secretário-geral das Nacões Unidas,  e estando a jantar, em Cascais, comigo e com o meu marido disse-me” sabe quanto custa fazer uma mina? E sabe que os que fabricam e vendem minas, são os mesmos que vão, depois, desmontá-las?.”Mas é um negócio espantoso.

Um encontro que a tenha marcado, para além de todas as pessoas de já me falou e que foram importantes na sua vida.

Nelson Mandela.  Uma personalidade ímpar. Fui assistir com o meu marido à passagem do poder do Presidente Clerk para o Presidente Nelson Mandela. Mandela convidou para esta cerimónia guardas da prisão onde viveu muitos anos. É um exemplo notável de amor. Não há nele pontinha que seja de ressentimento, de ódio ou de desejo de vingança. Também foi inesquecível um pequeno-almoço que tomámos com Sakarov(6) e a sua  mulher, em casa do nosso embaixador na, ainda, União Soviética.  Sakarov ainda não tinha sido libertado e foi o meu marido que conseguiu este encontro que me deixou muito feliz. Para além dos dois casais estava também o Carlos Fino, como tradutor. Terminado o encontro, acompanhámo-los à porta, o meu marido, porque Presidente da República em visita de estado, foi logo abordado pelos jornalistas e eu fiquei a olhar para o automóvel em que meteram o Sakarov e a pensar para comigo: vou daqui para um país livre e este homem continua a não poder usar da sua liberdade. Fiquei tão comovida com este encontro que não fui capaz de falar durante a viagem que nos levou dali até à etapa seguinte da visita presidencial.

Estava à espera que me falasse do seu encontro com Deus.

Foi um reencontro. Agarrei-me a Ele num momento muito angustiante da minha vida, de que até nem gosto de falar, que foi quando o meu filho João teve um grave acidente. E estou muito feliz com esse reencontro. Dá-me uma grande serenidade em relação à Vida, ao sofrimento, até em relação à Morte.

(1) Um dos heterónimos mais conhecidos de Fernando Pessoa

(2) Um dos grandes nomes do neo-realismo literário em Portugal. Em 1941 publica a sua obra “Esteiros” onde denuncia a miséria social e a injustiça, e dedica-a aos “filhos dos homens que nunca foram meninos”. A primeira edição da obra foi ilustrada por Alvaro Cunhal.

(3) Grande poeta e dramaturgo espanhol, universalmente conhecido. Foi assassinado a 19 de Agosto de 1936, sendo uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola.

(4) Músico e compositor. Dizia ser a música a sua única religião, “religião de uma Humanidade livre, justa e sábia”. Deixou um vasto e rico espólio musical que faz de si um dos mais significativos compositores da musica portuguesa e da Península Ibérica.

(5) Edição portuguesa da Gráfica de Coimbra.

(6) Andrei Sakarov foi Nobel da Paz em 1975, pela luta pelos Direitos Humanos na, então, União Soviética. Casou em 1972 com a activista dos Direitos Humanos Yelena Bonner. Em sua memória a União Europeia instituiu o Prémio Sakarov para destacar pessoas que lutam pelos Direitos Humanos e pela liberdade de expressão. O prémio é atribuído desde 1988.

Veja o vídeo aqui.

3 comentários a “Maria de Jesus Barroso

  1. Leonilde

    (Escrevi na minha página)
    *Ontem em Observatório do Mundo (TVI-24) Manuel Luís Goucha – TVI
    A entrevista com Drª. Maria Barroso*
    – Há pessoas que sempre conhecemos, sabemos quem são, mas muita coisas nos passam ao lado… tem que vêr com cultura e porque não dizer com política?… o que estou a escrever está “ligado” à Drª. MARIA BARROSO… Ontem vi uma entrevista à citada Senhora que agora físicamente nos deixou. Gostei imenso, devo dizer que em alguns momentos me comovi… há alturas, que algumas coisas se põem de lado, quando “outras coisas* afinal são bem mais importantes!
    Depois não quero deixar de repetir o que já algumas vezes tenho dito: o Manuel Luis Goucha, é um comunicador extraordinário, dentro do estilo de entreter… mas é muito mais do que isso: um entrevistador duma competência, um trabalhador do seu ofício que faz o “trabalho de casa” como ninguém! É justo que seja reconhecido, porque acho que muita gente ainda não sabe?!…

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  2. Jesuina

    De facto foi com enorme orgulho que li esta entrevista , orgulho na Senhora e Senhor que nela intervieram , de facto o nosso povo precisa a todo o momento de pessoas como estas , caracteres destes +e que nos deviam governar, ensinar , na televisão pública vão mostrando o nosso Portugal , mas faz falta programas culturais que mostrem as raças poderosas que existiram para que sejam seguidos os seus exemplos , façam filmes, novelas , etc mas com estes testemunhos únicos , de nada sabemos a fundo dos lutadores que existiram para que hoje possamos gozar de Liberdade , palavra banal para muitos , mas de um enorme significado para quem não a teve , obrigada

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