A Casa do Presidente Marcelo

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Hoje o Palácio de Belém muda de “inquilino” e se bem que o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, a exemplo dos seus antecessores mais recentes, apenas o venha a usar como local de trabalho, será ali que passará muito dos seus próximos cinco anos, entre audiências, reuniões e actos protocolares. Esta é a casa do Presidente (e até que é fácil sabermos quando ele está lá, basta que uma bandeira verde com a esfera armilar seja hasteada), mas já foi casa de reis. Aquando do terramoto de 1755, D.José vivia em Belém com a família. Apesar do palácio ter apenas sofrido pequenos danos, o rei não quis voltar a habitá-lo, preferindo instalar-se em tendas no Jardim Grande (actual Jardim do Buxo). D.Maria II habita o Palácio entre 2 de Agosto de 1844 e o final de Outubro de 1846, enquanto decorriam obras no Paço das Necessidades. Quarenta anos mais tarde o Palácio sofre obras de fundo para ali se instalarem D.Carlos e D.Amélia, após o casamento.

Ali habitariam por três anos, até D.Carlos assumir o reino (1889), tendo ali nascido os príncipes D.Luis Filipe e D.Manuel, aquele que viria a ser o ultimo rei de Portugal. Seria com D.Manuel II que o Palácio viveria o último acto oficial da Monarquia: a 3 de Outubro de 1910 decorreu ali um banquete em honra do Presidente do Brasil, Marechal Hermes da Fonseca, que nos visitava, já o ambiente era de grande perturbação, dadas as notícias da eclosão da revolução republicana. Das memórias de Vital Fontes, “Servidor de Reis e Presidentes”, retive, a propósito, este parágrafo: “Começou-se servindo no meio de um silêncio que não havia de ser quebrado pelos convivas no decorrer do banquete. Raros comiam e todos pareciam esperar qualquer coisa de fora, ainda que a presença do Marechal fosse a garantia de que ali nada aconteceria. Os pratos eram retirados quase sem lhes terem tocado, e os copos intactos iam alinhando sempre”.

Qualquer um de nós pode visitar o Palácio de Belém, há sábados para isso, é só uma questão de se informar junto do Museu da Presidência. Eu fi-lo, não propriamente em jeito de visita tranquila e organizada, mas aproveitando as conversas que nos últimos anos ali tive com Maria Cavaco Silva, deu para espreitar algumas salas e tirar umas quantas fotos, como gosto sempre de fazer.

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A entrada do Palácio faz-se pela rampa de acesso ao Pátio dos Bichos. O muro em frente exibe portas gradeadas, num total de nove. Do lado direito a fachada lateral do Palácio, por onde entram os convidados do Presidente. As portas gradeadas eram as bocas das jaulas, em tempos ocupadas por animais selvagens trazidos de África, daí o nome do Pátio.

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Em entrando no Palácio sobe-se à Sala das Bicas, cenário mais do que conhecido por serem ali proferidas todas as declarações aos jornalistas, nomeadamente aos canais de televisão, por quantos estiveram com o Presidente. O nome da sala deve-se às bicas em mármore que ali são e de onde jorra a água sobre pequenos tanques ovais.

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Por trás da Sala Dourada, que dá acesso aos três principais salões da zona nobre do Palácio, existe uma pequena capela, onde foram baptizados o rei D.Manuel II e seu irmão Luis Filipe, bem como Miguel, o segundo filho do Presidente Ramalho Eanes. De realçar as obras pintadas, propositadamente, para as paredes laterais da capela, por Paula Rego, também autora do retrato oficial do Presidente Jorge Sampaio, com cenas da vida da Virgem Maria e da Paixão de Jesus Cristo.

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Esta é a Sala Império, antes conhecida por Sala D.João V, dado o busto do Rei que ali se exibia, mais tarde por Sala dos Retratos, já que até 1985 era ali que podíamos encontrar os retratos dos Presidentes da República (hoje no Museu da Presidência). A sala é dominada por três magníficas Tapeçarias de Portalegre, da autoria de Mestre Almada Negreiros, cedidas pelo Montepio.

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Segue-se a Sala dos Embaixadores. É aqui que os embaixadores estrangeiros apresentam as suas cartas credenciais ao Presidente. Já antes havia sido conhecida por Sala Luis XV (estilo a que pertencia o seu mobiliário) e nos últimos anos da Monarquia chegou a ser conhecida por Sala da Rainha, uma vez que foi a sala particular de D.Amélia, durante os três anos em que ali viveu. Foi nesta sala que esteve exposto ao público o cadáver do Presidente Sidónio Pais. Não deixa de ser intrigante o excepcional lustre que pende do tecto apainelado. Esta peça única diz-se que poderá ter sido oferecida por Francisco José, imperador da Austria, ao rei D.Carlos, como prenda de casamento.

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Esta a sala que se segue à dos Embaixadores. É aqui que o Presidente trabalha e recebe em audiência, conforme, aliás, muitas vezes se vê nos “telejornais”. Já aqui dormiram reis e ilustres hóspedes da Coroa. As obras expostas nas paredes vêm de Museus do Estado e muito de acordo com os gostos pessoais de cada Presidente.

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Todas os salões nobres do Palácio abrem-se sobre a varanda de pedra, debruçando-se esta sobre o Jardim Grande, hoje conhecido como Jardim do Buxo.

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Dos jardins este é o meu favorito. Foi conhecido como Jardim Pequeno, mais tarde passou a ser chamado de Jardim da Cascata, percebe-se porquê. O espaço é fechado a norte por um conjunto de três pavilhões rococó, construídos no reinado de D.Maria I, entre 1780 e 1785, e segundo a tradição dos jardins cenográficos europeus, destinando-se aqueles a viveiros de pássaros exóticos. O pavilhão do meio abriga uma cascata onde pontifica uma figura hercúlea. Os antigos viveiros e a cascata foram recuperados já no decorrer da Presidência de Cavaco Silva.
www.museu.presidencia.pt

7 comentários a “A Casa do Presidente Marcelo

  1. António Raposo

    É preciso tanto luxo, tanta ostentação, que nos custa rios de dinheiro? Parece ser vaidade aproveitar-se de tal modo (os usufrutuários e quem legisla para isso) dos parcos dinheiros do povo. Quem quer luxos paga-os. Não é o que se diz ? Poi eu não quero luxos. Mas pago-os. Que remédio! Sou obrigado.

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    1. Maria Elisa

      Manuel Luís estou a adorar esta sua faceta,pois permite-me nesta fase da minha vida”sair de Casa” onde para além dos seus livros ,a minha filha no Natal ofereceu-me o último,vou visitando o blog que sempre adorei.Com carinho Maria Elisa

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  2. Carla

    Manuel
    Precioso, precioso!!
    É local que quero visitar há muito tempo, tenho uma revista de decoração com a qual me maravilhei com a reportagem.
    As fotos mágnificas, como as descrições feitas, obrigada por partilhar o belo do nosso Portugal.

    Permita-me que fale de outro assunto. Felizmente tenho a sorte de o poder ouvir ,como a outros enquanto trabalho. A sua liberdade, falar sem pudor de certas assuntos, alegria é de facto de louvar,tenho rido muito consigo ( rir faz bem, dá saúde ), adoro a sua espontaniedade, de o ver cair em si quando diz certas coisas. Não sei, mas creio que algo o fez assim, estar de bem com a vida , fazer os outros felizes é um trabalho interior ( crescer interiormente ), que só passando por algo menos bom ,nos faz despertar para uma vida mais sã fisica e mental. A minha mãe contou que o ouviu-o dizer que há muitos anos teve uma grave depressão e a superou. Desconheço isso, aprendi, ainda estou num processo de crescimento interior que nâo devemos reprimir sentimentos, devemos viver em liberdade, dizer o que sentimos o bom/mau.
    O Manuel dá momentos de felicidade a muita gente, continue assim.
    O Rui deve fazê-lo muito feliz, o amor faz milagres.

    Como fica forte uma pessoa quando está segura de ser amada.
    Freud

    Carla

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    1. MLG

      Obrigado Carla pelas suas palavras.
      Essa construção interior leva tempo e nunca está acabada, mas gosto do homem em que me tornei. Gostar de mim é essencial antes de ser gostado.
      Desejo-lhe o melhor da Vida.

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      1. Carla

        Manuel
        Hoje tive a resposta, que a minha intuição me dizia, https://www.youtube.com/watch?v=phJPAsnvX94, ouvir o seu testemunho a partir do minuto13,08 foi a confirmação do que pensava. As pessoas crescem, desatam nós que não sabemos porque os temos, a psicoterapia como a psicanálise ajuda a desbravar caminhos, criar novas narrativas da nossa história. Obrigado, obrigado, por partilhar algo tão intimo. “Amor próprio é essencial” estas palavras foram-me ditas por um grande psicanalista português, não as esqueço. Sei do que fala, uma construção interior numca acaba, mas a psicoterapia dá ferramentas que antes desconheciamos, fica-se imune a muita coisa, como mais sensível a outras, que antes estavam adormecidas. Ficamos melhor num todo, a meu ver.
        Partilho uma entrevista muito interessante, creio que vai gostar.
        https://www.youtube.com/watch?v=KLTPfatO1-Q

        Um abraço caloroso
        Carla

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